A liga que não se levava a sério

Esta é uma série publicada pela Panini Comics a partir de 2019, no formato Lendas do Universo DC. A publicação traz histórias clássicas dos personagens da DC Comics, sempre em formato americano e capa cartão.

Esta série de histórias da Liga da Justiça teve origem no final do ano de 1986, logo após a grande saga Crise nas Infinitas Terras. Com esta saga, a editora deu um reboot (reinício) em todo o seu universo, e todos os seus personagens passaram por uma reformulação e tiveram suas origens recontadas. A missão de reescrever a história da Liga da Justiça foi dada a J. M. DeMattels e Keith Giffen, com os desenhos de Kevin Maguire. Mas o trabalho teria um grande desafio: os maiores personagens da editora estavam sendo reformulados, logo não poderiam ser utilizados nas histórias da maior equipe de super-heróis da DC Comics. Ou seja, os autores não poderiam usar o Superman, a Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman e nem o Lanterna Verde (Hall Jordan). Dos super-heróis de primeiro escalão, apenas o Batman foi liberado. Essa grande enrascada foi resolvida com muito bom humor. Pelo menos, dentro das páginas das HQs.

A história, então, começa com um grupo de heróis querendo reativar a antiga Liga da Justiça. São eles: Batman, Caçador de Marte, Besouro Azul, Lanterna Verde (Guy Gardner), Capitão Marvel, Canário Negro, Senhor Milagre, Dr. Destino e Dra. Luz. Eles decidiram montar um grupo coeso e treinado para reagir rapidamente às ameaças que dificilmente seriam rechaçadas por pessoas comuns. O processo, desde o início, se mostra difícil, pois os envolvidos se mostram de personalidade forte e incompatíveis entre si. Então o Batman toma a frente como líder e, literalmente, “coloca ordem na bagunça”.

Com os membros definidos e os ânimos devidamente controlados (pelo menos por enquanto), os primeiros problemas começam a aparecer e a expectativa de atuar somente dentro dos limites dos Estados Unidos vai por água abaixo logo nas primeiras histórias. Umas das primeiras missões desta Liga acontece dentro dos limites da União Soviética, e pouco tempo depois num país fictício do oriente médio.

A partir do ponto em que o grupo tem uma projeção na mídia, surge Maxwell Lord, um empresário que tem planos de gerenciar e obter lucro com a equipe. Com um plano muito bem pensado de ação nos bastidores, ele consegue o objetivo e a sua primeira ação é mudar o nome da equipe para Liga da Justiça Internacional (LJI) e traça um plano de marketing para agir nos quatro cantos do mundo.

Tendo agora o respaldo da ONU, a LJI passa a atuar em vários países, e cada vez mais problemas passam a surgir. Principalmente problemas internos. A convivência diária se torna quase impossível e alguns membros abandonam o grupo. Com o passar das edições, aparecem vilões, novos membros, a Liga se divide em uma equipe com base na Europa e outra nos EUA, mas sempre com o mesmo bom humor das histórias.

O roteiro e os argumentos eram divididos entre o Keith Giffen e o DeMattels. Enquanto o primeiro era o responsável pelo roteiro, o segundo cuidava de escrever os diálogos. As histórias são muito bem escritas e surpreendentemente possuem um viés humorístico muito forte. Surpreendente por dois motivos:

  1. Porque, na época, a maioria das histórias em quadrinhos estava pendendo para um estilo mais “sério”, ou “adulto”. Frank Miller tinha feito enorme sucesso com a mensal do Demolidor e acabado de publicar “Demolidor: A Queda de Murdock”, “Demolidor Amor e Guerra”, “Batman Ano Um” e “Batman O Cavaleiro das Trevas”; Alan Moore já tinha publicado “Monstro do Pântano” e “Watchmen”; Art Spiegelman publicava mensalmente a revista “Maus”, que mais tarde seria o primeiro quadrinho a ganhar o prêmio Pulitzer de jornalismo.
  2. Um dos autores da Liga da Justiça, o J. M. DeMattels, tinha publicado, dois anos antes, seu trabalho autoral Moonshadow, que tem uma pegada filosófica incrível, sendo considerada uma das HQs mais profundas de todos os tempos. Além disso, já estava escrevendo “Blood – Uma História de Sangue”, uma trama profunda sobre vampiros. E ainda estava escrevendo a melhor e mais cultuada história do Homem Aranha: “A Última Caçada de Kraven”, que dispensa apresentações.

Trocando em miúdos: numa época em que os maiores sucessos eram quadrinhos com temáticas filosóficas, políticas e adultas, um autor que escreveu, talvez, a melhor HQ com questionamentos filosóficos da história, foi convidado para reescrever a Liga da Justiça, e ele o fez tomando o humor como carro chefe. Foi um grande sucesso.

A leitura é fluida e cheia de sacadas engraçadas e piadinhas. Até o Batman faz piada, e em uma das histórias ele até dá uma risadinha (coisa impensável até para os dias de hoje). A sensação é que estamos lendo uma espécie de sitcom. O foco dessas histórias não são as batalhas contra vilões, muito menos com aventuras espaciais, mas o relacionamento, o convívio e os conflitos interpessoais dos heróis.

Todas as situações de conflito entre os heróis surgem da diferença de personalidade entre eles. Os autores trabalharam e desenvolveram tão bem essas diferenças que, podemos reconhecer neles figuras do nosso dia a dia. Todo mundo tem um amigo engraçadinho (Besouro Azul), o amigo sério (Batman), o macho alfa valentão (Guy Gardner), a amiga charmosa (Fogo). E o mais interessante é visualizar nossos conflitos e brincadeiras do cotidiano nos super-heróis. Acho que isso explica, em parte, o enorme sucesso.

Para quem gosta de ler um quadrinho descomprometido, leve e bem humorado, é um prato cheio. Mas, para as pessoas mais sensíveis ao politicamente correto, talvez algumas situações sejam um pouco constrangedoras, principalmente pelo Guy Gardner, típico machão americano. Por exemplo, em uma das primeiras histórias, ele quase causa um incidente político ao chamar um grupo de russos, dentro da União Soviética, de “Comunas ateus vermelhos trotskistas canibais”

Os desenhos ficam por conta do Kevin Maguire. Não são desenhos realistas, nem detalhados, mas o artista consegue trabalhar muito as feições dos personagens, o que é positivo para o tom de humor. Em algumas passagens podemos saber exatamente o que o personagem está pensando somente pelo franzir de testa, ou um pequeno sorriso “de canto de boca”.

Eu tive o primeiro contato com a Liga da Justiça “Cômica”, ou “Liguinha” para os mais íntimos, em meados da década de 1990, quando ela era publicada aqui no Brasil pela editora Abril Jovem. Eram tempos de personagens fortões e cheios de armas, como o Spawn, Savage Dragon, X-Men do Jim Lee, o Superman morrendo e ressuscitando e o Wolverine fatiando pessoas. E no meio dessa miríade de loucuras, ganho um pacote de revistas da Liga da Justiça, e o que eu vejo são histórias leves e bem humoradas.

Quando vi a primeira edição na banca fui levado para a minha adolescência, quando as minhas preocupações eram apenas escolher minha próxima leitura, e treinar para os campeonatos de Winning Eleven 4. Inclusive, numa dessas histórias da Liguinha, ocorre uma das cenas mais épicas dos quadrinhos: Depois de várias provocações dentro da sala de reuniões, o Batman perde a calma e dá um soco na cara do Guy Gardner, e este cai desmaiado. Pura nostalgia.

As edições publicadas pela Panini têm capa cartão, numero de página variando entre 168 a 192 páginas e preço de capa entre 28,90 e 29,90. Sempre aparecem em promoções em sites de venda e vale muito a pena.

Por Maxson Vieira

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