Que o venezuelano Ricardo Darin é um dos atores mais completos de sua geração não nos é surpresa alguma. No entanto, ainda é deveras impressionante sua capacidade de se renovar a cada trabalho. Muito distante do estereótipo euro-americano de galã para enlatados televisivos, Darin possui traços fortes, quase rudes, que são muito bem aproveitados em seus personagens, em muitos casos homens endurecidos pela vida, atormentados por cicatrizes profundas de um passado um tanto infeliz. Assim é Kóblic.

Meados dos anos ‘1970. A Venezuela enfrenta um período duro com a recém estabelecida ditadura militar. Tomás Kóblic (Darin) é um ex-capitão das forças armadas que vive escondido em um pequeno vilarejo interiorano após desertar. Em seus dias de piloto, o capitão Kóblic fora encarregado de conduzir os cruéis “voos da morte”, nos quais os considerados subversivos, opositores ao governo vigente, eram lançados ainda vivos ao mar. Em uma dessas missões, Kóblic, atormentado pelo horror em sua consciência, se rebela e, após desafiar seus colegas em pleno voo, impõe a si próprio um exílio em um canto esquecido por Deus.

Colonia Elena é um lugar fictício. Não existe, não possui vida e, portanto, é retratado como tal. Tudo na fotografia, desde a paleta de cores aos ambientes exibidos em cena, dão aquele ar interiorano quase western, desacelerando o ritmo das cenas a um nível quase monótono. Falha da direção? Por se tratar de Sebastián Borensztein, podemos ter absoluta certeza de que não é este o caso. O diretor de Un cuento chino (também protagonizado por Darin), simplesmente possui a sensibilidade necessária para entregar a completa experiência de reclusão necessária para se internalizar a história de seu protagonista. Até mesmo os personagens secundários retratam essa depressão visual. Todos vivendo em um lugar fora do mapa, onde a única lei e o único deus residem na figura do delegado Velarde (Oscar Martinez), homem corrupto, apresentado logo no início da história como alguém de quem Koblic deverá manter toda a distância possível para a manutenção de seu segredo.

Em certo ponto da história, somos apresentados a Nancy (Inma Cuesta), aparentemente esposa do dono do posto de gasolina local – essa relação, posteriormente, se revela mais complexa do que parecia – com quem Kóblic acaba se envolvendo. Nancy é mais uma peça deste cenário sem vida. Abatida por sua condição de submissão, integrada à falta de luz daquele lugar (há inclusive uma metáfora muito bem encaixada em sua fala em determinada cena), ela já não enxerga esperança em seu destino, até que este misterioso milico entra em sua vida, agregando cor à personagem, mas, também, pondo-a em situação de extremo risco.

Com roteiro, escrito por Borensztein em parceria com Alejandro Ocon, Kóblic (2016) poderia facilmente encaixar-se em uma película menor, visto que não há densidade na história e o contexto militar/político é pouco explorado, ficando mais como plano de fundo para a razão do exílio. Não que sua história seja necessariamente arrastada ou vazia, mas poucos diretores saberiam conduzi-la corretamente sob o formato longa-metragem. Mais uma vez, a parceria entre Darin e Borensztein nos entrega uma trama envolvente reafirmando o nível de evolução do cinema latino.