O jornalismo é, essencialmente, uma profissão de conchavos. Sem o network necessário o jornalista nem consegue emprego.

Outro dia, numa conversa com um antigo colega dos tempos da faculdade, me peguei desabafando sobre as dificuldades momentâneas. A falta de emprego na nossa área, a luta mensal para pagar o aluguel, o desespero de acabar aceitando um emprego em call center para poder pagar as contas.

Esse mesmo colega estava bem empregado, havia conseguido um estágio num jornal de médio porte, ainda no terceiro ano de faculdade, e até hoje não saiu de lá. Perguntou sobre a revista em que eu estava trabalhando e, quando eu disse que havia fechado, ele resolveu me passar um sermão em tom professoral. A minha sorte é que o discurso se deu de modo debochado, quase como uma brincadeira entre velhos colegas.

Como diziam os romanos, “ridendo castigat mores”.

O sujeito saiu todo contente, crendo ter me feito um favor. Eu continuei desempregado e duro. E, depois dessa conversa, comecei a me sentir um fracassado. No dia seguinte, li um artigo desse meu colega em que ele reclamava da falta de oportunidades, das injustiças sociais, da má distribuição de renda. Achei curioso o apego a valores teóricos enquanto, na prática, havia um distanciamento das regras de cordialidade e convivência.

Ajudar os pobres um a um é alienação burguesa, diria Marx. É muito mais fácil falar dos problemas socioeconômicos de modo genérico, em termos abstratos.
Quando alguém real nos aparece com dificuldade devemos dar uma bronca e cobrar deste indivíduo um melhor gerenciamento da sua carreira profissional e financeira. Afinal, para ter chegado a uma situação como essa, só tendo sido muito descuidado.

Mas a verdade é que a pobreza, o desemprego, a fase ruim, não deveriam ser vistos com esse filtro estigmatizador. Altos e baixos existem na vida de todas pessoas – algumas mais que outras, é verdade – e isso não deveria ser desonra para ninguém.

O problema é que, ninguém se liberta dessa fase ruim simplesmente, com dinheiro. Todo mundo precisa de apoio psicológico, num ambiente que possibilite ao indivíduo sentir que está novamente conectado com a sociedade, que faz parte da raça humana.

Já é muito difícil vencer a dificuldade de reconhecer que se está numa fase ruim. Responder a esse pedido de ajuda humilhando ainda mais o solicitante não é, ao meu ver, uma forma muito civilizada de lidar com o problema.

O mercado editorial é, e sempre foi, dominado pelos apadrinhamentos. Nem sempre quem consegue o emprego é o mais capacitado, basta que se tenha um bom network. Isso deveria ser claro para todo mundo que trabalha na área ou que pretende ingressar nela algum dia.

Só acredito em ajudar as pessoas uma a uma, focando no problema específico de cada caso. Acreditar no discurso generalista como forma de resolver o problema é típico de uma mentalidade subdesenvolvida, incapaz de entender a correlação entre teoria e prática.

Todo cidadão em dificuldade merece maior demonstração de respeito do que uma pessoa em situação normal. Não entender isso é estar preso a um teatro de cordialidade caridosa em que o maior enganado é aquele que não se percebe canastrão de sua própria peça.

José Fagner Alves Santos

Este artigo faz parte da campanha #PEDAblogBR.

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