Publicado em 18 de abril de 2016

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

Domingo, 17 de abril de 2016, 23h07min: Brasília e muitas ruas do país afora ganharam um ar diferente. Bandeiras e camisetas das cores da bandeira nacional desfilavam pelas ruas e janelas num clima que mais parecia Copa do Mundo. Mas o motivo para tanta agitação nada tinha a ver com futebol, mas sim com política: tratava-se da confirmação da aprovação do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff autorizado pela Câmara dos Deputados. Após seis horas de votação, o placar final foi 367 votos a favor do impedimento, 137 contra, 7 abstenções e 2 ausentes. Eram necessários 342 a favor.

Não é de hoje que nosso país tem vivenciado um ambiente de revolta e indignação popular contra a presidente Dilma e o seu partido, o PT, que há tempos é destaque na mídia pelo envolvimento com a corrupção.  Mas o que levou à abertura de um processo de impeachment foi a alegação de pedaladas fiscais – atraso proposital do repasse de verbas pelo governo para bancos e autarquias a fim de maquiar as contas públicas – e a liberação de recursos sem autorização do Congresso.

Todos estes fatores acabaram formando uma bola de neve que se tornou um forte motivo para os cidadãos brasileiros se manifestarem contra à presidente, compondo um cenário que não se via desde as Diretas Já. Mas corrupção, pedaladas e desvio de verbas não são termos novos para a política brasileira. Tomemos como exemplo o caso da Operação Lava Jato, que vem investigando suntuosas quantias de dinheiro repassadas ilegalmente a parlamentares (propinas) por grandes empreiteiras, em troca de contratos com a Petrobras. Os próprios delatores da operação já disseram que tais atos também aconteceram na gestão de presidentes como Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Lula.  E com as pedaladas fiscais não foi diferente, já que ela parece ser uma ação corriqueira no histórico presidencial.

Mas se tudo isto vem acontecendo há tanto tempo, por que somente agora a população veio a se rebelar? A resposta talvez possa estar num dos grandes termômetros para a aprovação ou reprovação de um presidente: a economia brasileira. Bastar voltarmos um pouco no tempo para comprovarmos tal hipótese.

No ano de 1998, por exemplo, o número de pessoas que consideravam a gestão FHC ótima ou boa equivalia a 43% da população. Isso num ambiente ainda marcado por uma estabilidade econômica favorecida pelo Plano Real. Mas a crise financeira do final desta década acabou resultando numa queda desta porcentagem para 26%, em 2002, no final do seu segundo mandato. Em 2006, já na gestão do presidente Lula, as pessoas que consideravam seu governo bom chegavam a 48% e, mesmo com o estouro do escândalo do mensalão na época, Lula acabou sendo reeleito e alcançando em 2010 um nível recorde de popularidade, equivalente a 83% da população brasileira avaliando sua gestão positivamente*.

O que explica essa elevação? Apesar do estouro da bolha imobiliária norte-americana em 2008, que abalou a economia de muitos países, o Brasil nadava contra essa corrente desfrutando de um cenário econômico favorável ao voltar-se para seu mercado interno em alta, graças à valorização da moeda nacional. Mas não demorou muito e a crise – que para o Brasil parecia ser uma marola, nas palavras do ex-presidente Lula – tornou-se um tsunami.

Ao invés de aproveitar o momento propício para investir na produtividade do país, o governo preferiu aumentar a concessão de créditos para incentivar o consumo, reduzir drasticamente os juros bancários e oferecer incentivos fiscais às indústrias. Resultado: a demanda ultrapassou a oferta, elevando assim os preços dos produtos, a população se endividou, os juros aumentaram e o caixa do governo apertou, já que não havia lucro com a produtividade. Tudo isto acabou agravando-se na gestão de Dilma, que hoje apresenta somente 10% de aceitação pública, de acordo com o Ibope – a presidente tinha um índice de aprovação de 40% em 2014, mas a agravação de um cenário de estagnação do PIB, aumento do desemprego e desvalorização do real pode ter contribuído para essa queda.

Mas não podemos nos esquecer do quão prejudicial a corrupção pode ser para a economia de um país, se levarmos em conta os bilionários desvios de verbas que deveriam ser destinadas aos investimentos necessários no Brasil. Por isso, há que se ter cautela quando analisamos deputados votando a favor do impeachment para desviarem-se de seu histórico de corrupção – sem contar a ficha suja do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Nosso vice-presidente, Michel Temer, que está há poucos passos de se tornar presidente também é um exemplo que ilustra o “sujo falando do mal-lavado”. Enquanto corrupto seguir acusando corrupto para salvar a própria pele, a economia seguirá na UTI, pois medidas eficazes que priorizem a população e não o próprio bolso não serão tomadas.

*Dados do jornal Folha de S.Paulo