La Metafora

 

Mais que uma simples figura de linguagem, este elemento narrativo toma a forma de uma personagem oculta na história a seguir.

O ano é 1952. Por razões políticas, o poeta chileno Pablo Neruda (1904–1973) se vê exilado em Capri, uma pequena ilha localizada no Golfo de Nápoles, ao sul da Itália. Habitada por uma comunidade de pescadores, essa pequena faixa de terra de pouco mais de que 10 km² é o lar de Mário (Massimo Troisi), um jovem semianalfabeto que vive com o pai viúvo. Mário, ao contrário de seu pai, não possui a mesma aptidão para a “profissão dos apóstolos”. A chegada de Neruda (Philippe Noiret) à ilha mudaria drasticamente a vida do rapaz.

Designado pela agência do correio local a entregar a correspondência do poeta, Mário acaba por se envolver com Neruda em uma relação quase que aluno-mestre. Conquistado pela simplicidade do rapaz, o poeta lhe apresenta o poder das palavras. Esta, pensava Mário, seria a ferramenta com a qual conquistaria o amor da bela Beatrice (Maria Grazia Cucinotta). Mário está engajado em tornar-se ele próprio poeta, compreender a lógica da “metáfora” da qual seu agora amigo e mentor Pablo tanto fala, entender o que é e como funciona a poesia.

“Quando se é explicada, a poesia torna-se banal. Melhor que qualquer explicação é a experiência de sentimentos que a poesia pode revelar a uma alma suficientemente aberta para entendê-la.” Esta é a explicação de Neruda para seu jovem amigo. Com o tempo, sua própria interpretação da poesia e seu entendimento da metáforaenquanto possibilitadora de certas liberdades sensoriais vão se formando e solidificando.

Sim, Mário por fim seduz sua donzela. Um casamento, uma vida, conquistas se sucedem enquanto “Don Pablo” segue com sua vida em outro canto do mundo. No entanto, a despedida entre o carteiro e o poeta não marca o fim dessa história; pelo contrário, representa um novo começo para Mário. Mais que metáforas, Don Pablo incutia em sua mente valores e ideais políticos que o guiariam a momentos jamais imaginados pelo outrora desocupado e ignorante filho de pescador.

Temos em Il Postino (1994), dirigido por Michael Radford, um exemplo de um belo romance falsamente despretensioso. O que a princípio nos parece uma história ingênua de  conquista afetuosa, aos poucos revela seu caráter politizador. Mais que um homem das letras em sua sua terra, Neruda por vezes flertou com a política. Senador, candidato à presidência, sua ideologia comunista fora o motivo de seu exílio e, dizem alguns, também de sua morte – ocorrida poucos dias após a consolidação do golpe de 73, que levou ao poder o general Augusto Pinochet – que até hoje é alvo de investigações, dadas as circunstâncias e denúncias de pessoas próximas.

Cenários poéticos por si só, uma trilha sonora igualmente digna e atuações apaixonantes.
Massimo Troisi consegue intercalar entre a paixão arrebatadora de um primeiro amor e momentos dignos de Chesperito, mergulhando-nos em seu mundo fictício e convencendo-nos da inocência de sua personagem. Philippe Noiret entrega uma atuação  respeitável, à altura da grandiosa figura que representa. Não que os demais atores e personas não se destaquem, mas a interação entre os dois… simplesmente dita as regras.

Talvez Il Postino (“The Postman” para os americanos e “O Carteiro e o poeta” no Brasil)  não seja um filme para todos os públicos. Mas, sem dúvida alguma, entrega tudo o que se pode esperar de uma belíssima obra de arte. Não um filme apenas, mas uma quimera de propostas e sensações.