“Pior que tá não fica”, declarou o deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido pelo nome artístico de Tiririca, durante sua campanha a candidatura na Câmara em 2014 – quando foi eleito com mais de 1 milhão de votos. A frase popularizou-se rapidamente, como um reflexo da situação política brasileira.

Todavia, ao fazer um retrospecto político desde 2014 até hoje, vemos que a frase pode ser facilmente contestada já que, naquele período, a então presidente Dilma foi reeleita e sofreu um impeachment pouco mais de um ano depois, a economia brasileira segue respirando por aparelhos, o desemprego atinge 13,7% de brasileiros, equivalente a 14 milhões de pessoas, batendo novo recorde, segundo IBGE.

Mas no cenário político há outros problemas: o atual presidente Michel Temer corre o risco de perder o mandato, ou melhor, corria. Estava em julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a ação que podia cassar a chapa formada por Dilma e Temer, por irregularidades cometidas na campanha das eleições de 2014. Mas, por quatro votos a três, o TSE absolveu a chapa, afastando o risco de tirar Temer do poder. Ao menos por enquanto, já que o presidente teve sua imagem comprometida logo após a divulgação de um áudio, na terceira semana de maio de 2017, contendo uma conversa comprometedora entre ele e um dos proprietários da empresa JBS (José Batista Sobrinho), Joesley Batista, indicando seu envolvimento em negócios ilícitos, incluindo a compra do silêncio do deputado preso, Eduardo Cunha.  A notícia soou como um estrondo em meio a um cenário já caótico.

Em abril de 2017, por exemplo, o ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Procuradoria Geral da República a investigar 39 deputados, além de 8 ministros e 3 governadores envolvidos em corrupção.  Ou seja, “pior que tá, pode ficar e, mais e mais.”

Logo após a divulgação da notícia sobre a JBS e o presidente Temer no Jornal O Globo, as ações do Brasil sofreram uma queda imediata de 11% em Nova York. O dólar disparou, com uma alta de 5,77%, resultante de um movimento de proteção dos investidores, em relação às incertezas geradas sobre a permanência do presidente no poder. Com a elevação do câmbio, as importações são reduzidas e a inflação pode se elevar, afetando a queda dos juros estabelecida pelo Banco Central, impulsionando, assim, a elevação dos juros bancários que, por sua vez, contribuem para o aumento das dívidas e retenção do consumo. Trata-se de um efeito cíclico e ainda mais prejudicial para a economia.

No dia seguinte às revelações do áudio, o presidente afirmou categoricamente que não renunciará e vem defendendo a importância de permanecer no poder para a aprovação das reformas – como a trabalhista e da previdência – as quais, segundo alega, são necessárias para aliviar o caixa governamental. “O Brasil não pode parar” é a frase utilizada na campanha do Governo Federal, destinada a persuadir o público para a manutenção de Temer. Trata-se de uma estratégia reveladora de uma preocupação muito maior em salvar a própria pele do que a economia nacional, afinal, diante de tantas incertezas, a permanência de Temer no poder é volúvel e, enquanto essa volatilidade perdurar, os investidores se manterão retraídos. Sem investimentos, o país não progride e não consegue investir em produtividade, coração do desenvolvimento da nação.

Portanto, é preciso “reciclar”, sim, nosso país; experimentar os remédios mais amargos que possam curar suas feridas e não apenas tampá-las. Uma faxina ética e moral se faz necessária e urgente no Congresso, impedindo que qualquer envolvido em atos ilícitos tenha acesso ao poder. Além disso, as tais reformas tão defendidas pelo governo não são mais urgentes que a redução de benefícios concedidos aos parlamentares, que continuam a desfrutar de benesses oriundas do dinheiro dos trabalhadores.

O governo tem se mostrado generoso quanto as dívidas das empresas. Ele vai oferecer um programa de refinanciamento de dívidas tributárias (Refis), com a possibilidade de descontos de até 90% nos juros devidos e 50% nas multas.

Em meio a todo esse caos político, o anúncio do crescimento de 1% da economia brasileira nos três primeiros meses do ano de 2017, depois de oito trimestres seguidos de retração, soou como um alívio especialmente para os governantes.  Mas não há o que comemorar. Segundo o presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Júlio Miragaya, a agropecuária, que puxou esse crescimento, foi influenciada pela alta dos preços das commodities agrícolas e minerais do primeiro trimestre, o que não deve se repetir no segundo. A supersafra do agronegócio de 2016/2017, com destaques para a soja, milho, arroz e fumo, contribuiu para tal cenário.

Assim, a economia segue preocupante diante de um panorama político tão perturbador que, a cada dia, tem uma nova falcatrua revelada. Desceremos mais algum degrau? Há alguma saída para esse longo e tenebroso “túnel” da economia?

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