Olhando rapidamente, pode parecer uma bela forma de se afastar de todo o lixo que se tornou a política, de protestar pelo jogo sujo que se traveste de interesse pelo bem público. Mas a verdade é que, quando escolhemos não escolher já estamos a fazer uma escolha – estamos deixando que outros escolham por nós.

Assim fica mais fácil sair dizendo que a culpa não é nossa. Que nem lá nós fomos e que político é tudo igual.

Se estamos indignados com toda a podridão cuspida em nossa cara nos últimos anos, então por que manteremos no poder praticamente os mesmos nomes? Por que, entre tantos candidatos, vamos escolher entre duas pessoas que já estão na política há tanto tempo e que não fizeram nada de significativo?

E o mais difícil de entender: por que o Senado Federal, mesmo com previsão de renovação de no mínimo 40% dos seus membros, fará nada mais que ressuscitar velhos nomes, mantendo vivas as capitanias hereditárias da política?

Estamos decidindo nosso voto com base nos fatos ou nas chamadas fake news (mentiras), estamos nos orientando pela razão, pela religião, pelo medo…pelo ódio?

O fato é que, nos tornamos reativos. Parece que existe dentro de nós uma disputa em andamento e trata-se de uma questão de vida ou morte. Freud diria que o contexto atual está provocando nossas pulsões mais primárias como as pulsões relacionadas com vida e morte.

Seja como for, a festa não para e nem pode parar. Diante disso, surgem esfaqueadores, juízes agindo como profissionais circenses, produzindo as mais diversas emoções no público. O povão, por sua vez, fica embasbacado esperando a próxima bomba que vai explodir, para ver quem vai perder uma perna – será o Bolsonaro? Haddad? Ciro? Se for aquele que não é meu candidato, tudo certo. Mas se a merda no ventilador atingir meu idolatrado, faço de conta que nada vi, meu voto já foi decidido e mantê-lo é questão não apenas de escolha, mas de viver ou morrer.

Um alerta: o orgulho e o ódio podem não ser os melhores conselheiros. Em tempos de impeachments cabe votar observando quem são os vices. Se olharmos para eles com tranquilidade veremos que tipo de Brasil teremos, caso algo dê mais errado do que o fato de estarmos escolhendo nosso voto movidos pelos afetos e não pela razão.

Escolher ou não escolher? Não existe tal questão. Sempre escolhemos.