A cultura caiçara é uma cultura rica de essência viva de outras que foram se intercalando a partir do século XVI, como a indígena, em sua mais pura forma de integração com a natureza, ao retirar da mata, dos rios, da terra o que se precisa para aquele momento da sua subsistência, tanto para se alimentar quanto para fazer remédios, unguentos e outros processos curativos. Com os índios, veio o gosto em saber lidar com todas as fases e o processamento da mandioca e fazer com ela uma das suas mais ricas fontes de alimentação básica – presente em quase todas as suas refeições, tanto na sua forma de farinha fina e torrada, quanto na famosa e única “Farinha Manema”, tão apreciada pelos caiçaras em todas as suas possíveis combinações cotidianas.

Dos portugueses, os caiçaras herdaram muitas das práticas religiosas e a sua devoção em vários santos e nas grandes manifestações, como: As procissões, festas, reisado e outras atividades religiosas, tendo a guarda da quaresma como um momento de respeito e reflexão, além de algumas danças e cantigas antigas que remontam o tempo do Brasil Colônia.

Com os Negros, chegam as variadas danças como a congada, e uma culinária rica em temperos e sabores que veio se juntar as especiarias locais e asiáticas, além da mistura de algumas práticas religiosas e a contribuição como a do índio e do português na nossa tão distinta língua mater.

A cultura Caiçara é diversa e rica em Patrimônio Material e Imaterial. Ela proporciona não só uma memória cultural, mas sim uma lembrança afetiva que nos acompanha pela vida toda.

Os caiçaras predominaram entre o litoral do estado do Rio de Janeiro ao Litoral do Paraná e é nesse trecho onde essas tradições ainda se estabelecem em alguns polos, como no sul do litoral do estado do Rio de Janeiro, no estado de São Paulo onde o litoral como um todo tem fortes influências caiçaras, mas podemos dizer que a grande concentração que ainda guarda um número de tradições expressivas em vários segmentos está localizado na área da Juréia, ou seja, entre os municípios de Peruíbe e de Iguape, seguindo para Ilha Comprida e principalmente Cananéia que se encontra  encostada com o Litoral norte do estado do Paraná, onde a tradição da pesca com canoa, as danças com os tamancos, o artesanato e as rabecas e violas confeccionadas com a caixeta, árvore típica da Mata Atlântica de peso leve, que proporciona um manuseio fácil e prático para o caiçara desenvolver não somente a sua arte, mas também os produtos para usar nas várias atividades de seu cotidiano.

Hoje, vários municípios contam com leis que comemoram o dia do Caiçara, assim como o estado de São Paulo com a lei 16.290/2016 que incentiva as comemorações caiçaras dentro do calendário turístico do estado.

Sei que as intenções para a criação dessas leis são as melhores possíveis, mas é preciso se atentar as tradições e para isso é preciso observar um importante detalhe cultural que não deve ser esquecido, pois na a maioria das leis municipais criadas para a comemoração do dia do Caiçara é em 15 de março, e essa data está dentro das meditações da quaresma.

Aprovo e fico feliz com a criação dessas datas e sei que são importantes para uma conscientização e conhecimento das várias atividades dessa cultura e isso é louvável, porém criar o dia do Caiçara em plena quaresma não é legal, pois o caiçara, principalmente os tradicionais, guardam todos os dias da quaresma desde a meia noite da terça-feira de carnaval até o sábado de aleluia.

Dessa forma, analiso que ao criar tal lei, primeiro deve-se entender um pouco de patrimônio imaterial e o que acarreta as suas tradições, não culpo os políticos de boa vontade que criaram esse dia com grande justiça, só quero alertar para dizer que não basta criar: É preciso entender, consultar a comunidade e escutar suas estórias e histórias.

Viva a Cultura Caiçara! Salve a nossa Identidade Praieira!

Autoria e Texto: Fátima Cristina Pires

Historiadora, especialista em Patrimônio Histórico e Mestre em Educação

Foto: Márcio Ribeiro

Publicado originalmente no: Jornal de Peruíbe, exceto a foto

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