Publicado em 30 de setembro de 2016

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

No dia 2 de outubro de 2016, 144.088.912 eleitores brasileiros, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), votarão em candidatos a prefeito e vereador, um número 4% superior ao das últimas eleições municipais em 2012 — o Brasil soma 206 milhões de habitantes, de acordo com o IBGE.

Muitos desses eleitores possuem um traço em comum: a total descrença em nossos governantes e a desesperança em eleger novos candidatos, sob a alegação de que “todos são farinha do mesmo saco”, ou seja, “políticos são todos iguais”. Prometem um mundo de oportunidades e promessas, “que se desmancham no ar”; discursos sem consistência com a realidade: “Promessas, promessas e mais promessas!”

Por isso, diante de tanta publicidade, e sonhos sem realização, há muita desesperança, descrença no atual cenário da política brasileira.

Assim, torna-se urgente refletirmos sobre nossa responsabilidade como cidadãos, construtores da “polis”, das muitas questões da cidadania. Para tanto, precisamos dar maior valor a nossa política, acompanhando as promessas de nossos candidatos e fazendo uma reflexão crítica sobre as incoerências e coerências de suas falas em relação ao que é viável de se concretizar. Não basta apenas assistir debates e/ou campanhas públicas, mas buscar, encontrar, analisar e contextualizar o que realmente fará sentido ou não. São nas próprias promessas dos candidatos que já podemos identificar falhas graves para que possamos eliminá-los de nossas escolhas.

Essas análises tornam-se ainda mais contundentes quando a fazemos do ponto de vista econômico, por exemplo. Sabemos que a economia de um país é que o rege. É da economia que garantimos os recursos necessários para a concretização das políticas públicas, da saúde, da educação, da moradia e de tantas outras necessidades básicas, tais como a grave situação da precariedade do saneamento básico, nas pequenas e grandes cidades, pelo país afora; recursos estes oriundos da produtividade nacional; não adianta ficar apenas na reclamação, ou fazer “um mar de promessas”, considerando que o orçamento não cobrirá nem um terço delas. É preciso prometer medidas eficazes que realmente poderão ser cumpridas, trazendo melhorias à população.

Citando como exemplo as campanhas dos candidatos à prefeitura de São Paulo – que possui 8,9 milhões de eleitores –, é perceptível o número de compromissos vazios, genéricos e infundamentados que são feitos por eles. Exemplificando mais concretamente: promessas como construções de 64 novos hospitais e término de 28 que não acabaram (Marta Suplicy); fim das filas nas creches, sem o apoio de parcerias (Erundina Guerra); criação de um cartão com chip, com informações sobre consultas, remédios e exames de cada paciente (Celso Russomano); criação de 10000 empregos diretos na construção civil (Fernando Haddad); implantação do Corujão da Saúde, para atender a população durante a madrugada em hospitais privados (João Dória).

Em matéria divulgada na revista “Veja São Paulo” (edição 2496, 21/09/16), os profissionais Alexandre Notte, diretor de tecnologia da Engenharia de Web; Hélio Zylberstajn, coordenador do projeto Salariômetro da Fipe; Luciano Amadio Filho, presidente da Apeop; Ministério do Trabalho; Secretaria Municipal da Saúde; FGV; SindusCon-SP deram suas opiniões a respeito dessas promessas:

– Investir num cartão com chip demandaria cerca de 100 profissionais de tecnologia da informação, além dos custos com compras de equipamento e treinamento de pessoal. O investimento seria de 100 milhões e demandaria no mínimo três anos.

– Num momento em que o Brasil sofre com o desemprego gerado pela crise econômica – há 12 milhões de desempregados no Brasil, segundo IBGE – somente em São Paulo, a construção civil perdeu 50000 vagas na construção civil, o que tornaria inviável no momento contratar mais 100000 trabalhadores na área.

– A implantação do Corujão da Saúde exigiria um custo de 3,3 bilhões de reais ao ano, demandando que a mesma quantidade de médicos existente hoje na rede municipal (6417) ficasse disponível a noite, recebendo o mesmo salário mais 40% de adicional noturno.

– Para zerar as filas em creches em apenas doze meses, seria necessário construir 26 unidades por semana, a um custo de 745 milhões de reais.

– Para terminar 28 obras inacabadas de hospitais e construir mais 64 seriam necessários, no mínimo, 10, 5 bilhões de reais, valor maior que o orçamento anual de saúde, 9,4 bilhões.

A Câmara Municipal de São Paulo aprovou orçamento da prefeitura para 2017 de 51,3 bilhões, 3 bilhões menos que o deste ano.

Portanto, a economia revela-se um dos maiores termômetros para avaliar o nível de incoerência presente nas falas dos candidatos. É através de análises como essas que poderemos votar de forma mais consciente, constituindo a maior mobilização para mudar o país.

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