Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

Neste ano de 2017, a Campanha da Fraternidade – cujo tema é “Fraternidade: Biomas Brasileiros e defesa da vida” e lema “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15) – tem o objetivo de Cuidar da Criação, de modo especial dos Biomas Brasileiros, e promover relações fraternas com a vida e cultura dos povos, à luz do Evangelho.  Tema, aliás, tratado também como cuidado com o meio ambiente em outros anos da Campanha. Realizada, anualmente, pela Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil, sempre no período da Quaresma, a Campanha da Fraternidade aborda um tema diferente a cada ano com o objetivo de mobilizar a sociedade para algum problema brasileiro que exija soluções adequadas.

O IBGE define bioma como um “um conjunto de vida (vegetal e animal) constituído pelo agrupamento de tipos de vegetação contíguos e identificáveis em escala regional, com condições geoclimáticas similares e história compartilhada de mudanças, o que resulta em uma diversidade biológica própria”.  Eis os seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.

De acordo com Nicolau João Bakker, assim como ocorre com o meio ambiente e a célula, a vida “é sempre uma teia de relações colaborativas”. Ou seja, tudo está interligado e, quando alteramos qualquer uma das relações existentes no planeta, todas tendem a ser alteradas. Por isso, não adianta pensar que “encarcerados” em nossas selvas de pedra, estaremos a salvo dos grandes desastres naturais, que continuarão a acometer regiões, como consequência das ações destrutivas do homem contra o verde. Infelizmente, um dos fortes entraves que continua a impedir o maior avanço de medidas sustentáveis é o desejo desenfreado de crescimento econômico, já que ações sustentáveis que privilegiem a natureza e não o dinheiro apenas, demandam maiores gastos.

O Brasil possui a maior cobertura vegetal do mundo depois da Rússia, mas ela vem diminuindo a cada dia com o desmatamento que atinge cerca de 20 mil quilômetros quadrados por ano. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial, a área desmatada da Amazônia até 2002 era superior ao território francês. A Mata Atlântica perdeu 92% de sua cobertura vegetal. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, 67% do Cerrado sofreu modificação e a Caatinga teve cerca de metade de sua vegetação reduzida.

Este triste panorama é resultado direto da ganância e cega obsessão por lucros e mais lucros, fazendo com que a economia e a sustentabilidade caminhem em trajetórias inversamente proporcionais. Mas não são apenas as plantas e animais que sentem na pele, com a morte e risco de extinção de diversas espécies, as consequências de tais atos. Há um grupo específico que também sofre muito: as populações menos desenvolvidas.

Ocupando 49% do território nacional, equivalente à 4.200.000 km2 e formado pela maior floresta do mundo, o bioma Amazônia é palco de um triste cenário do trabalho escravo, onde trabalhadores cortam árvores ilegalmente sob risco de acidentes e ameaças dos donos das serrarias.  De acordo com a Campanha Pastoral da Terra (CPT) de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo, em 2015, cerca de mil trabalhadores foram resgatados da escravidão. Parece um número pequeno, mas os dados podem ser bem mais alarmantes, já que existe uma crítica sobre o que é considerado trabalho escravo.

Os fiscais justificam que trabalho escravo é muito mais que uma infração isolada: é a soma de tamanhas violações à dignidade ou à liberdade da pessoa, literalmente reduzida a mero objeto, que elas acabam colocando em grave risco sua integridade ou mesmo sua vida. Ainda segundo a CPT, as principais atividades que se beneficiaram da prática do trabalho escravo em 2015 foram: a construção civil (243 resgatados), a pecuária (133) e o extrativismo vegetal (114), atividade, todavia, que as comunidades de proximidade são exploradas em regime de aviamento por patrões, como ocorre ainda muito também no interior da Amazônia.

Muitos destes trabalhadores são submetidos a questões desumanas de sobrevivência, sem alimentação e descanso adequados, passando horas e horas no campo, muitas vezes sob um sol escaldante, a fim de conseguir um sustento para a família, ou ainda impossibilitados de abandonar o ofício, diante das ameaças sofridas.

Mas este é apenas um dos grupos afetados pela devastação. O aumento do desmatamento na Amazônia, por exemplo, segundo cientistas, influencia o regime de chuvas em todo o Brasil e contribui para o aumento das secas, afetando também os pequenos produtores rurais e, consequentemente, a cadeia de produção alimentícia nacional.

Outro bioma que vem sendo desmatado e assim prejudicando o país e até o mundo como um todo é o Cerrado. De acordo com pesquisadores do Instituto Internacional para a Sustentabilidade e de outras instituições nacionais e internacionais, o Cerrado ainda pode perder 34% do que lhe resta, o que levaria à extinção de 1140 espécies endêmicas. Hoje, 43% da água da superfície do Brasil fora da Amazônia está no Cerrado. O agronegócio é um dos grandes responsáveis pelo seu desmatamento. Bernardo Strassburg, professor da PUC-Rio e coordenador do estudo e secretário-executivo do IIS, afirma que quando se substitui a vegetação natural por uma plantação de soja, a capacidade de reter água e alimentar os lençóis freáticos se perde. Temos então uma crise hídrica, que acaba acarretando também em crise energética, já que a maior parte da energia brasileira é gerada pelas hidrelétricas.

Estudo da organização Forest Trends afirma que 90% da derrubada ilegal da floresta no Brasil deu lugar ao gado e à soja.  O que é colhido nas terras desmatadas ilegalmente vai parar em cosméticos, produtos domésticos, alimentos e embalagens que são consumidos internamente e exportados para outros países. O consumo desenfreado mais uma vez coloca o dinheiro acima de tudo.

No bioma Pantanal, maior área inundável do planeta, uma possível solução para as inundações não atrapalharem as navegações seria aprofundar em um metro o leito do principal rio, o Paraguai. Mas os defensores não se dão conta de que o solo ressecaria e ficaria pouco ou nada produtivo. Já no bioma Caatinga, os meios de comunicação dizem que os projetos de irrigação podem fazer muito por uma região caracterizada pela seca. Porém, essa irrigação é questionada por gastar grande quantidade de água, com técnicas que facilitam a evaporação, e com uso de produtos químicos que contaminam a fruta, o solo, o próprio rio, montando uma produção toda voltada para a exportação que enriqueça apenas os grupos econômicos poderosos e não favoreça a produção local.

E o que dizer do bioma Mata Atlântica, que só possui 8% de sua vegetação natural? Composto pelas cidades mais urbanizadas do país, este bioma não recuperará mais o que perdeu, mas é possível salvar o pouco que restou por meio de medidas como plantio de mudas nativas, uso de energia solar, combate ao desperdício de água e energia, uso de transporte público sempre que possível.

Já no bioma Pampa, que ocupa apenas o estado do Rio Grande do Sul, na parte brasileira, e caracteriza-se por uma área centrada em campos abertos, cresce a consciência e a luta contra a sua transformação em monoculturas de eucaliptos e pinus, que por sua vez altera a umidade, circulação dos ventos, vegetação, solo, enfim, tudo o que forma o bioma.

Portanto, mesmo com as já claras ocorrências de secas, crises hídricas, diminuição das matas, alteração climática etc, o aumento do lucro exacerbado e obtenção de benefícios próprios continua a falar mais alto. Não há mais como repor o que foi perdido, mas sim salvar o que nos resta. Por isso, governantes, cidadãos e instituições ambientais precisam agir o quanto antes na preservação dos recursos naturais, pois hoje o homem engole o bioma, mas amanhã este o engolirá, junto com sua ganância monetária, se este quadro não for revertido imediatamente.

FONTES CONSULTADAS: CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade 2017: Texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2016.
POLLETO, Ivo. Biomas do Brasil: da exploração à convivência. Brasília, 2017. Disponível em: <http://www.crbpr.com.br/wpcontent/uploads/2017/03/livro_BIOMAS_DO_BRASIL_2017_final.pdf>
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