Personagens sarcásticos, uma boa dose de humor irônico, cenas de violência dotadas de muito sangue e uma mescla de gêneros que faz a plateia envolver-se instantaneamente em um filme que lança mão de suspense, drama e comédia: assim são as produções dirigidas por Quentin Tarantino, considerado um verdadeiro mestre da violência moderna cinematográfica.
Depois de se consagrar dirigindo grandes produções como Kill Bill (2003), Pulp Fiction (1994) e Bastardos Inglórios (2009), ele volta aos telões com Django Livre, que tem tudo para ser mais um sucesso e apenas confirma uma grande injustiça cometida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que excluiu Tarantino da indicação ao Oscar de Melhor Direção deixando cinéfilos e não cinéfilos boquiabertos.
A trama se passa nos tempos de escravidão estadunidense, em 1858, três anos antes da Guerra Civil Americana. Django (papel de Jammie Fox) é um escravo que se torna companheiro do Dr Schultz (Christoph Waltz) – caçador de recompensas – a partir do momento que este o compra, prometendo-lhe a liberdade se aquele o ajudar a encontrar três delinquentes com as cabeças postas a prêmio.
Cumprida a tarefa, Django pretende resgatar sua mulher Broomhilda (Kerry Washington), que é escrava do poderoso fazendeiro Calvin Candie (interpretado por Leonardo di Caprio), famoso por promover lutas fatais entre negros. Para isso, o protagonista da história e o Dr Schultz se tornam parceiros inseparáveis na busca e concretização desta missão. Assim que a dupla chega à fazenda onde se encontra a esposa de Django, os dois executam um plano estratégico a fim de enganar Candie e tentar comprar a liberdade de Broomhilda.
Mas vários são os obstáculos para que tudo não saia conforme o planejado, entre eles a intromissão de um escravo de confiança (Samuel L. Jackson) de Candie que desconfia de Django e Schultz desde o primeiro momento em que os vê.
Com um elenco impecável, o talentoso Christoph Waltz é quem rouba a cena em toda a primeira parte do filme, interpretando um caçador de recompensas extremamente perspicaz, sarcástico e desafiador. O ator está incrível em seu papel, conseguindo incorporar um personagem cômico e que enfrenta quem for preciso, usando para isso não apenas suas armas letais, como palavras sábias e confrontadoras. Não é a toa que Waltz ganhou o Globo de Ouro como melhor ator coadjuvante e concorre ao Oscar na mesma categoria.
Outro ator que não deixa a desejar e está completamente entregue ao papel é Leonardo di Caprio, cujo personagem é dotado de um sarcasmo similar ao presente no caçador de recompensas. Caprio parece mesmo se destacar muito mais quando moldado pelos grandes diretores – um exemplo foi sua brilhante interpretação em A Ilha do Medo, de Martin Scorcese – e com Tarantino não faz diferente.
Não se pode deixar de ressaltar a destacada atuação de Samuel L. Jackson, quem também rouba a cena em vários momentos centralizando toda a atenção da plateia para si.
Django Livre não é somente um filme que retrata a escravidão e a diferença de comportamentos entre os próprios escravos conforme sua condição serviçal, mas também se classifica como faroeste espaguete – termo atribuído à forma como os italianos fazem filmes western com base na própria leitura hollywoodiana. E cenas clássicas do cinema como o beijo romântico de felizes para sempre, a conversa de figurões sentados em suas poltronas tomando drinques e fumando cigarros – entre outros – fazem jus ao termo.
Aliada à grande atuação do elenco, a produção também conta com efeitos especiais de explosões e tiroteios que surpreendem e divertem a plateia ao estilo Tarantino de fazer cinema. Outro ponto forte é trilha sonora, que mescla vários gêneros musicais passando de clássicos marcantes aos estilos pop atuais.
Vencedor do Globo de Ouro nas categorias Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro, o longa recebeu 5 indicações ao Oscar incluindo Melhor Filme , Roteiro Original e Ator Coadjuvante.
Por Mariana da Cruz Mascarenhas