Em meio à confusão do carnaval me refugiei numa livraria, como sempre. Aproveitei o feriado para ver os lançamentos, para me inteirar sobre o que está vendendo e sobre o que está encalhando. Reparei que boa parte da literatura feita no Brasil, pelo menos a literatura de viés comercial, tem se mostrado cópia do que está dando certo lá fora.

Já havia percebido isso durante o período em que passei revisando textos numa pequena editora aqui da região. Os escritores jovens ficam empolgados depois de ler seus livros preferidos e resolvem fazer cópias dessas histórias. Trocam o nome de alguns personagens e trazem a história para o contexto brasileiro.

Mas, um enredo com fórmula estilística estrangeira nunca será literatura nacional, mesmo que o personagem principal se chame João da Silva e que ele more em São Paulo ou em qualquer outra cidade brasileira. Para quem acha que estou exagerando, posso dar um exemplo elucidativo: entre os livros que fiz revisão, havia um que era cópia descarada de “A culpa é das estrelas”, mas se passava entre Salvador e Londres. Que tal?

Claro que estou citando um caso extremo, mas a influência – para não chamar de cópia – da literatura estrangeira é facilmente percebida. Não estou dizendo que os autores não deveriam sofrer influência, não é isso. Mas a cópia descarada é algo que ofende a inteligência do leitor. Duvido muito que esse tipo de livro venda algo. Há uma preocupação muito grande em ficar rico com o que se escreve. Acho essa possibilidade muito remota. Tanto quanto ganhar na loteria ou se tornar jogador profissional de futebol.

E já que estamos falando de literatura estrangeira, cito aqui um trecho do livro Como ficar sozinho, do Jonathan Franzen. Durante a crítica à literatura comercial ele coloca que “é longo o caso de amor entre literatura e mercado. A economia de consumo adora um produto que vende com boa margem de lucro, fica logo obsoleto, ou é suscetível de melhoras constantes, e oferece a cada melhora um ganho marginal em utilidade”.

E o próprio Franzen conclui que “para uma economia assim, a novidade que permanece não é apenas um produto inferior; é um produto antitético. Uma obra clássica de literatura é barata, infinitamente reutilizável e, o pior de tudo, não pode ser melhorada”.

A grande piada de tudo isso é que, num país em que a maioria das vitórias do intelecto foram obtidas por pobretões como Capistrano de Abreu, Cruz e Souza, Machado de Assis e outros do mesmo calibre, a cultura ainda é tida como um bem de consumo reservado às classes superiores, como um símbolo da riqueza que nós, pobretões, jamais alcançaremos.

  • Raneves

    Não seja tão severo… Existem bons escritores e originais, acontece que ninguém lê os autores atuais ou mesmo os antigos, sejam eles bons ou não.