A desinformação propagada pela mídia é fruto do nosso apreço pelos conceitos arraigados em nosso imaginário.

Em seu livro “Me engana que eu gosto” (aqui), o comunicador Luciano Pires dedica um capitulo ao que ele chama de “argumentos emocionais”. Aquele tipo de discurso que contrapõe a realidade àquilo que desejamos que ela fosse. Em resumo, a pessoa que quer vender uma ideia qualquer apresenta os pontos positivos e omite os negativos. Se não houver pontos positivos é só inventar. O Luciano resume assim essa estratégia:

O poder persuasivo do argumento emocional leva o comprador à conclusão que o vendedor quer. E quanto mais emocionais forem os argumentos, mais difícil fica escapar deles.

Principalmente se você for ingênuo.

Estava conversando com um colega, também jornalista, sobre o documentário “Che Guevara – Anatomia de um psicopata”, e tomei um susto com o comentário que esse meu colega fez: “não concordo com o que dizem os entrevistados no documentário”.

Deixe-me explicar melhor a situação. Eu não estava lá, ele não estava lá, você não estava lá. Tudo que sabemos sobre Ernesto Guevara é fruto daquilo que nos contaram, daquilo que lemos. Quem melhor para contar como era o homem por trás do mito do que aqueles que viveram com ele, que treinaram com ele, que lutaram com ele?

É claro que essas testemunhas podem mentir, mas o fato é que eles são a principal fonte de informação sobre esse assunto. E eu, que nasci depois que Guevara já havia morrido, não posso simplesmente discordar do que dizem essas pessoas (que viveram com ele) com base na ideia que tenho de um suposto herói.

No mínimo, o documentário deveria provocar certa curiosidade, deveria fazer com que checássemos outras fontes, cruzássemos os dados, averiguássemos a veracidade de cada depoimento. Mas, para quê? Isso quebraria o mito. Daria-nos uma dimensão mais ampla de que tudo aquilo que conhecemos sobre Che é fruto de propaganda iconoclasta. Semelhante ao que houve com Tiradentes e tantos outros.

Todo ser humano tem dificuldade em revisar suas “verdades”, mas isso não deveria ser tão comum entre jornalistas. O problema é que a maioria dos formadores de opinião defende uma visão de mundo apoiada por seus preconceitos, pelos seus medos, pelos seus interesses. Não importam os dados, importa apenas a interpretação que dou a eles. Fica parecendo que é tudo uma questão de opinião.

Você pode até ser da opinião de que 2+2=5, mas isso não vai fazer com que a realidade se curve à sua vontade. Nós, jornalistas, muito mais do que o cidadão médio, deveríamos tomar cuidado com isso.

José Fagner Alves Santos

Este artigo faz parte da campanha #PEDAblogBR.