Ao som de muito sapateado e, claro, de músicas tocadas por uma orquestra, que não pode faltar num musical, o espetáculo Crazy for you é uma adaptação da Broadway que estreou em Nova York no ano de 1992. Este foi um grande marco na história dos musicais por exaltar a genialidade artística norte-americana tão famosa por suas coreografias sincronizadas, num ritmo obedecido com extrema perfeição, acompanhado do brilho contagiante dos atores e de cenas típicas presentes nos filmes americanos que fizeram história, por exemplo, com o astro da dança Fred Astaire.
            Com adaptação de Miguel Falabella para a versão brasileira que acontece no teatro do Complexo Ohtake Cultural, Crazy for You destaca um tortuoso e complicado romance que surge entre Bobby Child (Jarbas Homem de Mello) – um playboy nova-iorquino cujo sonho é se tornar um astro dos musicais, porém seu desejo é totalmente repreendido por sua mãe, que espera que o filho se interesse pelos negócios da família – e Polly (Cláudia Raia), uma rude interiorana que vive na pacata e quase deserta cidade de Pedra Morta.
            Em um determinado dia, Bobby é enviado por sua mãe para Pedra Morta com o objetivo de cobrar uma dívida do dono de um teatro local que está falido e precisará ser fechado. No entanto, ao chegar lá Bobby acaba se apaixonando por Polly, a filha do proprietário do teatro, e resolve então “ressuscitar” o estabelecimento artístico montando um espetáculo juntamente com o povo da região e algumas bailarinas de um famoso diretor artístico que reside em Nova York. Elas vão até a cidade pacata exclusivamente para ajudar Bob. Mas uma série de confusões e conflitos acaba dificultando a aproximação de Bob de sua amada, que com seu gênio embrutecido não demonstra, a princípio, o menor afeto por ele.
            A história simples e praticamente linear do espetáculo é totalmente preenchida por fabulosas apresentações artísticas bem longas, cujas músicas ganham um prolongamento apenas instrumental ao seu final para estender o tempo das coreografias do elenco, que neste momento aproveita para dar um show no palco. Apesar do sincronismo nem sempre ser seguido com extrema perfeição, a dança tão desenvolta e corporal, cujas variações arrancam aplausos e ovações da plateia em vários momentos, se enriquece sonoramente com os barulhos rítmicos produzidos pela brincadeira sonora feita pelos atores com os próprios objetos de cena.
            Sem contar ainda o espetáculo de sapateado que envolve Jarbas e Cláudia Raia e complementa a peça no decorrer de sua história, fazendo alusão a uma das cenas mais memoráveis para o gênero musical, envolvendo a dança de sapateado entre Fred Astaire e Ginger Rogers no filme Vamos Dançar, cuja música, “They Can’t Take Away From Me”, também pode ser ouvida neste musical na voz de Cláudia Raia. Crazy for you é um delírio principalmente para os ouvidos dos amantes de musicais, por trazer composições fantásticas de George Gershwin e letras de Ira Gershwin, que se destacaram na Broadway.
            Vale ressaltar o papel de Jarbas Homem de Mello, cuja desenvoltura e extrema agilidade cênica exigidas para o seu cômico papel arrancam altas risadas dos espectadores, e ainda vale destacar um diferencial trabalhado neste espetáculo pelo diretor José Possi Neto, que confere identidade para cada um dos figurantes que compõe o elenco. Algo inclusive que deveria ser mais aplicado nos demais espetáculos musicais, os quais, por exigirem um numeroso elenco, acabam ofuscando o papel de muitos atores que se restringem apenas a ser figurantes. Porém, em Crazy for you, cada personagem tem uma personalidade diferente e não passa despercebido pela plateia, já que cada um tem o seu momento, sem sair das imposições de seu papel.
Com 150 minutos de duração, é perceptível que o musical segue à risca a versão original em todos os momentos, com cenografia e figurino muito bem trabalhados e também pelo estilo da coreografia que obedece a original criada por Susan Stroman.
O musical encerra a temporada deste ano no dia 22 de dezembro e volta em cartaz no dia 9 de janeiro de 2014 no Complexo Ohtake Cultural.
Por Mariana da Cruz Mascarenhas