Fonte da imagem: Funarte

Se o ser humano considerar tudo aquilo que vê unicamente como aquilo que é, será que ele está vendo de verdade? Mas, se considerar que tudo aquilo que vê não é uma tradução do que é, então pode realmente estar enxergando. Muitas vezes, nossos comportamentos, palavras e ações expressos socialmente são resultado dos desejos de nossa alma, só que de modo invertido. Ficou confuso(a) ou pensativo(a) sobre os significados de tais afirmações? Tudo bem! Estranho seria se não ficasse, pois este é justamente o propósito do monólogo A Alma Imoral, em cartaz no Teatro Eva Herz, em São Paulo: levar a mente da plateia para além do teatro imergindo em reflexões.

Há mais de dez anos em cartaz, o monólogo é uma adaptação feita pela atriz Clarice Niskier – que atua na peça – do livro de mesmo nome, escrito por Nilton Bonder. Durante aproximadamente 70 minutos de duração, Clarice nos convida a refletir o sentido da vida e de muitas atitudes que movem o ser humano. Com pequenos toques de humor, o texto aborda questões como religião, matrimônio, fidelidade, traições, conceitos de verdade, certo e errado. Falas ricas e densas unificam os assuntos em torno da importância do rompimento de paradigmas e tradições para permitir a evolução da humanidade.

A forma como esse rompimento é valorizado e justificado é muito bem explorada por meio da abordagem dos temas mencionados. O espetáculo reflete como, muitas vezes, os seres humanos são condicionados a tomar certas decisões, não como reflexos das vontades inerentes a sua alma – esta marcada por desejos que, às vezes, transgridem a moral, num sinal natural de que o ser humano não é cem por cento bom e nem mal, mas completo – mas sim para atender às exigências sociais, numa falsa construção imagética do que os outros esperam dele.

Assim, todo aquele considerado rebelde, diferente, transgressor tem suas “mutações” condenadas, não por motivos plausíveis, mas sim por gerar incômodos naqueles que se submetem aos aprisionamentos sociais e não têm coragem de assumir o rompimento de padrões já estabelecidos. Como compensação, apressam-se em julgar o outro, reprimindo nele aquilo que também gostariam de fazer e muitas vezes não tem a audácia necessária, o que configura a hipocrisia social.

Outra questão muito bem abordada são as definições de verdade, certo, errado e lei. O ser humano age com base no que acredita ser certo e errado, assim como no que é ou não permitido pela lei. Mas o que é certo? O que é errado? Quem define as leis? O texto nos leva a compreensão de que não há um único conceito que possa definir imutavelmente as respostas a tais perguntas, pois cada um está inserido num contexto, o qual é levado em consideração pela influência que exerce na forma que os outros têm de enxergar o mundo.

O mesmo se define para a afirmação de verdade, afinal o que é verdadeiro para um, não necessariamente será para o outro. Eis o perigo de hegemonizar as verdades como absolutas, privando o ser humano do exercício da dúvida. Se não questionamos, como abrir a mente para novas compreensões de mundo? Como enxergar outras realidades que vão muito além da nossa?

Enfim, A Alma Imoral é um texto inteligente, interdisciplinar, reflexivo e altamente recomendável para que façamos uma reflexão sobre como enxergamos o mundo e desenvolvemos nossas compreensões dele. Um texto para mexer com o intelecto do começo ao fim da peça, com a grande contribuição de Clarice Niskier, que interpreta muito bem cada palavra do roteiro, conferindo ainda maior sentido ao seu significado. Dirigido por Amir Haddad, o monólogo já recebeu o Prêmio Shell – RJ 2007, na categoria Melhor Atriz; Prêmio Caravana Funarte de Circulação Nacional de Teatros e, em 2008, Prêmio Qualidade Brasil São Paulo de Melhor Atriz na categoria Drama.

Serviço:

Peça A Alma Imoral

Onde: Teatro Eva Herz (Livraria Cultura): Avenida Paulista, 2073, Bela Vista, São Paulo – SP. Tel: (11) 3170 – 4059

Quando: terças e quartas às 21h, a partir do dia 20/02

Quanto: R$ 70

Até 25 de abril de 2018