O que nos define? Certamente essa pergunta complexa exige uma resposta complexa, afinal cada ser humano é dotado de uma série de atributos sociais, históricos, físicos, psicológicos etc. que o caracterizam como ele é. Dentre tais aspectos, a história é fundamental para o entendimento do sujeito como um todo, pois, se possuímos determinadas manias, trejeitos, qualidades e defeitos, os adquirimos em algum momento de nossa trajetória, dentro de um contexto histórico.

Por isso há algo fundamental em nossas vidas que configuram cada sujeito como único no mundo: as memórias. São elas que nos movem, inspiram e nos faz sentir mais vivos. Constituídas como uma relação entre neurônios, as memórias podem ser estimuladas por reações multissensoriais, como um gesto, um odor, uma imagem, uma música. São justamente algumas dessas sensações que a plateia é convidada a sentir juntamente com o personagem, no espetáculo inglês A Natureza do Esquecimento.

Encenada pela companhia internacional londrina Theatre Re, a peça aborda a perda memorial por meio da história do protagonista Tom, um homem prestes a completar 55 anos de vida, que sofre com uma demência precoce. O espetáculo se inicia com Tom sendo ajudado pela sua filha Sophie a se vestir para a própria festa de seu 55º aniversário. Assim que ela sai de cena, o protagonista mergulha em pensamentos, viajando em suas memórias, numa tentativa de afirmar-se dentro da própria mente em meio as perdas de memória.

Mas esqueça uma peça convencional que aborda as angústias de um personagem de forma melancólica. A Natureza do Esquecimento é um espetáculo que explora um problema sério de maneira sutil, envolvente e encantadora e de forma totalmente diferente. Quase desprovidos de fala, os atores utilizam da mímica, dança, sons e iluminação, acompanhados de uma arte circense, para inserir a plateia na mente de Tom.

A medida que ele se lembra de seus tempos escolares, passeios, relação com a mãe, casamento etc. os atores mudam o cenário em segundos, com simples objetos de cena e excelente trabalho corporal,  embalados por músicas instrumentais tocadas ao vivo por uma banda presente no palco, cujo ritmo e melodia são coerentes com as tensões, emoções, alegria e raiva vividos pelo personagem. A medida que Tom confunde suas próprias lembranças, ao decorrer da peça, os atores o expressam em movimentos mais acelerados e mescla de cenas, acompanhados da música que permite tal identificação.

Trata-se de uma experiência cênica multissensorial que não se pauta simplesmente na perda de memória, mas sim nas fragilidades inerentes à condição humana e como lidar com elas na busca de um sentido para nossas vidas; além de revelar como a mescla de sensações pode nos envolver de forma muito mais profunda, ajudando a adentrar a realidade alheia pela empatia. O espetáculo esteve em cartaz no Sesc Santana para duas únicas apresentações nos dias 24 e 25 de fevereiro de 2018.

Para quem perdeu, clique aqui para conferir no Youtube pequenos trechos da apresentação.