Era mais uma daquelas trilhas recém-abertas para a demarcação de lotes. Comecei a caminhar ao som de um casal de garrinchões-de-bico-longo que matraqueavam ocultos pela vegetação. Mosquitos esvoaçavam no ar quente. Ao meu redor, o som de grilos invisíveis se confundia com os chamados da pequena rãzinha-do-folhiço. Ao longe, um pequeno bando de papagaios-de-cara-roxa passava aos gritos. A meu lado, um limpa-folha-coroado revirava uma bromélia alheio a minha presença e à fêmea de choquinha-pintada que o observava logo abaixo. A uns 25 metros acima de minha cabeça uma gralha-azul emitia seus gritos de alarme. Então escutei o chamado característico de um rapinante. Gavião-pato? Gavião-pombo-pequeno? Por aqui há muitas espécies! Liguei o gravador e segui na direção em que o rapinante havia vocalizado. Cheguei até o local onde a trilha desaparecia em uma região pantanosa repleta de altos guanandis e caixetas. Um bando de guaxes sobrevoava o alto das árvores em direção a seus ninhos colgantes. E lá no alto, entre a densa folhagem de um guanandi encontrei o motivo da inquietação da gralha-azul: a cabeça possante de um enorme rapinante se movia de um lado a outro, metade do corpo oculto pelas duras e brilhantes folhas do guanandi. Não pode ser! Deve ser um jovem de gavião-de-penacho! Ela não vai vocalizar de novo? Um raio de sol penetra o teto de folhas e queima minha nuca. Um tiê-preto emite um pio discreto. Ao longe, um jaó-do-litoral lamenta os frutos caídos de cambuci que estavam ali ainda ontem, mas que alguma paca havia passado primeiro. Um galho se rompe e olho para trás (aquela era uma região perigosa até então). Um caxinguelê percorre os galhos e um macho de rendeira ousa cruzar a trilha com seu ruído característico. A gralha-azul continua firme em sua função de sentinela da mata de restinga, o topete eriçado, seus gritos enchendo o ar úmido e sem ousar se aproximar muito da árvore da rainha. O gravador continua ligado. Mosquitos engordam rapidamente pousados na minha testa. Então ela vocalizou. Vibrei ao ver a luz vermelha do meu gravador de mão piscando e gravando. Uma mão trêmula levou o binóculo até meus olhos e me permiti ver os detalhes: o penacho ereto e bipartido, a mancha negra abaixo do pescoço, o bico poderoso. Ela permaneceu pousada e silenciosa mais um tempo até que sua paciência foi vencida pela gralha. Então deixou-se cair, gigante, poderosa e livre, deslizando na direção de um pau-de-balsa. Me meti no pântano, seguindo por uma espécie de trilha às vezes perdida e às vezes encontrada, mas ao chegar ao pé-de-balsa a rainha já havia partido para algum lugar que até então só ela conhecia”.

“Esse registro só comentei com o atual diretor do Parque Estadual Xixová-Japuí que na ocasião já trabalhava para a Fundação Florestal e me ajudou a fiscalizar a área.”

Este emocionante depoimento foi publicado nas redes sociais pelo biólogo e ornitólogo, Bruno Lima, autor da gravação, no município de Itanhaém. Este belo texto consegue, com maestria, dividir a emoção do momento da gravação, levando o leitor a caminhar, junto com ele, os caminhos pantanosos da descoberta.

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Harpia, Gavião ameaçado de extinção, é gravado na área a ser destruída pela Termoelétrica

Circulou ainda, nas redes sociais, uma petição online pedindo a criação de uma unidade de conservação para proteger as florestas de Itanhaém e Mongaguá, local onde vivem os papagaios-de-cara-roxa e outras espécies. O local possui uma beleza cênica impar e também uma mata de restinga exuberante e preservada.

Como o objetivo de conseguir mais de 4 mil assinaturas foi atingido, uma proposta de criação desta unidade deve ser apresentada em uma reunião, marcada para acontecer em novembro deste ano.

Reportagem e Pesquisa: Márcio Ribeiro

Depoimento: Bruno Lima

Foto: Ricardo Koloszuk (gentilmente cedida) feita no Pará.

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  • Anderson Dias

    Afinal, foi em Itanhaém ou em Peruíbe? Sou morador de peruíbe, local onde estão pretendendo instalar a tal usina. Grato pela informação

    • Márcio Ribeiro

      Olá Anderson. Muito obrigado pela sua audiência em nosso site.
      Bruno Lima conhece bem a região e nós conhecemos o trabalho dele.
      Ele gravou o som da Harpia em Itanhaém, exatamente no local onde as linhas de transmissão da usina vão passar.
      Agradecemos o contato.