A oficialização, em junho de 1980, da aventura atômica promovida pelo governo ditatorial na mata atlântica paulista, parece ter alimentado com bastante lenha a fornalha de protestos antiusina. Políticos, ecologistas, religiosos, indígenas, posseiros, caiçaras e o cidadão comum mobilizaram-se de diferentes formas e passaram a pressionar pelo fim do empreendimento nuclear na Juréia.

Tais protestos ganham um ar ainda mais desafiador se levarmos em conta o contexto histórico que o país vivia, submetido, há mais de 15 anos, às agruras de uma nefasta ditadura civil-militar. O aparato de vigilância, controle e repressão instituído pelo governo autoritário funcionava a todo vapor.

Em Iguape, o feriado de Corpus Christi daquele 1980 foi um pouco diferente. Segundo o jornal Correio do Vale (que circulava gratuitamente às quintas e aos domingos) “a cidade amanheceu repleta de faixas que apelavam para o bom senso das autoridades e o afastamento da ameaça nuclear, através de frases simples e objetivas.” Convocavam , também , a população a comparecer “em massa à grande concentração realizada às 20:30 horas, da qual participaram [sic] autoridades de todo o Vale do Ribeira, além de políticos e estudiosos de outros municípios”. (Correio do Vale, 8 a 11.6.1980).

Correio do Vale, 8 a 11.6.1980, capa.

O jornal A Tribuna do Ribeira noticiava que na noite de quinta-feira, diante de cerca de duas mil pessoas, o prefeito de Cananéia, José Herculano Rosa, chamou de canalhas uma série de políticos (dentre eles o governador do estado Paulo Maluf) por se lembrarem do vale para pedir votos e nunca aparecerem quando a região precisa. Um vereador tentou defender Maluf e foi ostensivamente vaiado e quase agredido por populares. Cumpre destacar a manchete de A Tribuna do Ribeira em sua edição de 7 a 13 de junho de 1980 (p.1): “Tumulto na manifestação contra as usinas nucleares em Iguape”. O periódico — pertencente ao grupo santista A Tribuna , circulava, apenas aos sábados, de Praia Grande até Registro — destaca mais o incidente do que o protesto, associando a mobilização popular a desordem e violência. Tal prática se configura numa longa permanência de nossa imprensa, que até hoje prima por desqualificar e demonizar as diversas manifestações realizadas por grupos populares.

Até mesmo na tradicional procissão houve protestos. Uma passarela “confeccionada com materiais diversos, como pó de café, serragem, tampinhas de cerveja, palha de arroz colorida” formava desenhos multicoloridos. “Junto com a bonita decoração apareciam as faixas de protesto contras as usinas nucleares”, informava A Tribuna do Ribeira. Na missa, realizada na imponente Basílica de Bom Jesus após a procissão, o padre Nicolau Becker não se omitiu e manifestou-se com relação à instalação das usinas nucleares entre Peruíbe e Iguape, durante o sermão : “Por aqueles que agora são felizes./ Por aqueles que agora choram./ Por aqueles que agora nascem./ Por aqueles que agora morrem. Louvado seja o Meu Senhor”. “Hoje no Dia do Meio Ambiente, ficamos horrorizados com a notícia da desapropriação de um dos lugares mais bonitos que já encontrei na Terra. E eu já viajei por todo mundo”. (A Tribuna do Ribeira, 7 a 13 de junho de 1980, p.8).

A Tribuna do Ribeira, 7 a 13 de junho de 1980, capa.

Na mesma edição do jornal, um anúncio da Associação Paulista de Proteção a Natureza (A.P.P.N.) estampava a frase USINAS NUCLEARES CRIME DE LESA HUMANIDADE.

As mulheres iguapenses também se mobilizaram e iniciaram a organização de um abaixo-assinado e de uma passeata de repúdio à medida do governo. Por outro lado, estudantes das escolas de primeiro grau prepararam cartas que seriam enviadas ao Presidente da República, informava A Tribuna, em 11/6/1980 (p.7).

Em Peruíbe, os protestos foram na Barra do Una, no dia 14 de junho. Sem a presença de políticos, o movimento maior ficou por conta dos caiçaras e de estudantes de História de Itanhaém, que protestaram com bom humor. Afixaram em “diversas moradias de caiçaras duas pequenas placas: a primeira, onde aparece o desenho de uma pessoa simbolizando um sargento, com as iniciais CESP na farda, e onde está escrito: ‘Edito de banimento, ai vem o sargento’; e na segunda aparecem as letras P e R, seguindo-se uma coroa e acima a inscrição João VII.” (A Tribuna, 15/06/1980). Os cartazes evocam o episódio da desapropriação de moradias no Rio de Janeiro, quando do advento da Corte portuguesa em 1808. O João VII era, obviamente, o ditador-presidente João Figueiredo e o P.R. aludia ao “Príncipe Regente” pintado nas portas das casas a serem desocupados a mando do monarca no início do século XIX e que a população carioca, chistosamente, transformou em “Ponha-se na rua”. A manifestação teve animação musical, com violeiros cantando músicas de protesto. A principal canção era “A Usina Atômica“, que em determinado trecho dizia: “E na serra da Juréia/ que tem forma de fogão/ já está encomendado um enorme caldeirão/ que é pra caldeá/ quem tempera é o biruta alemão”.

A Tribuna, 15.06.1980

Como forma de protesto contra a construção de usinas atômicas no litoral, o Centro dos Estudantes de Santos convidava todos os setores da comunidade para participar na manhã do domingo, 17 de agosto de 1980, de um passeio ciclístico cujo trajeto iria do Aquário até o Orquidário. O secretário-geral do Centro prometia outras ações como a realização de amplos debates nas escolas a fim de conscientizar os estudantes para o perigo da construção das usinas nucleares. (Cidade de Santos, 12.8.80).

É interessante notar a preocupação de diversas entidades que organizavam manifestações com a conscientização da população a respeito dos perigos da energia atômica. Um panfleto, produzido pela Associação Paulista de Proteção à Natureza (A.P.P.N.), intitulado “Sua vida corre perigo!” passou a ser distribuído nas cidades do litoral e do vale do ribeira. Nele eram apresentados 18 pontos desfavoráveis sobre as usinas.

Panfleto produzido pela Associação Paulista de Proteção à Natureza (A.P.P.N.), intitulado “Sua vida corre perigo!”

Os periódicos da época relatam mobilizações também no interior do estado de São Paulo, bem como a intenção de criação de uma frente nacional contra as usinas atômicas:

Cidade de Santos, 22.06.1980, p.3.

Nos espaços institucionais também começavam a aparecer vozes dissonantes. Em 19 de junho, foi lido na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo – pelo deputado Sérgio Santos – um manifesto de repúdio à instalação das Usinas, redigido pelo vereador itanhaense Ernesto Zwarg Júnior. A conclusão do texto merece destaque: “ Estamos chorando a nossa, terra, o nosso direito às paisagens do Paranapuã, da Barra do Una, do Rio Verde e da Juréia. Estamos clamando ante o truncamento do Caminho do Correio do Imperador, a primeira estrada do Brasil. Estamos reclamando a liberdade de ir e vir, que nos seria assegurada na Constituição. Estamos lamentando perder o direito de ver o sol poente atrás dos Itatins e da Juréia.” (Cidade de Santos, 20.06.1980).

Em Iguape, a Câmara Municipal, no dia 9 de junho de 1980 aprovou, por unanimidade, um projeto de lei de autoria do Executivo que “proibia a instalação de qualquer indústria ou equipamentos poluentes ‘ou modificadores de biologia ambiental, a exemplo das usinas nucleares’”. Segundo A Tribuna (11/06/1980), o prefeito de Iguape preparava um ofício, a ser encaminhado ao Ditador-General-Presidente João Baptista Figueiredo, a fim de apresentar o temor e a perplexidade da população diante da notícia.

O presidente da Associação Paulista dos Municípios, Wilson José, ressaltou o posicionamento da entidade em relação ao programa nuclear federal no litoral paulista: “Que fique bem claro que nós já nos manifestamos contrário a tal programa”.

Ainda no mês de junho, sindicatos de classe, estabelecimentos de ensino, estudantes, Câmaras e Prefeituras de diversos municípios da região, a Associação Paulista de Proteção ao Meio Ambiente e a Sociedade de Ecologia, Humanismo e Paisagismo de Itanhaém, se articularam a fim de realizar, em 25 de junho de 1980, na Praça Mauá, em Santos, o “Dia do Luto Nuclear”. Cerca de 40 mil panfletos foram distribuídos nos municípios da região convocando a população para o ato. O jornal Cidade de Santos noticiava no dia do protesto que os manifestantes “usarão tarjas negras, que representam o medo das consequências desastrosas da instalação de usinas na região”. Foram confeccionadas 10 mil tarjas, a serem distribuídas entre os participantes com os dizeres: “Usina Nuclear: Não“. Pelo visto, a população santista não se empolgou em protestar contra a Usina. A Tribuna – que parecia manter postura reticente em relação ao projeto nuclear e aos protestos, produzindo manchetes que procuravam desmerecer ou depreciar as manifestações – noticiava a participação de 200 pessoas. O mesmo número era apresentado pelo jornal Cidade de Santos — fundado em 11 de julho de 1967, o periódico circulou até 1987 e parecia manter uma linha editorial mais contundente e independente que A Tribuna, em relação à temática das usinas. Chamava a atenção o boicote do prefeito de Santos ao movimento: “O policiamento – fardado ou civil – foi discreto, a chuva não chegou a atrapalhar e o maior problema foi o fato de o prefeito Paulo Gomes Barbosa ter negado um pedido da comissão especial de vereadores, integrada ao movimento antinuclear, para ceder o palanque e os aparelhos de som que, normalmente, são emprestados até a pequenos clubes e associações recreativas.”

Materiais de divulgação do “Dia do Luto Nuclear”, em 25 de junho de 1980.

Os movimentos antiusina também valeram-se de momentos de grande concentração popular para realizar manifestações. Em 9 de julho de 1980, A Tribuna noticiava que o MOCUN (Movimento Contra Usinas Nucleares) organizava para o dia 5 de agosto um grande ato — com a presença de lideranças sindicais e estudantis, além de políticos — que “ deverá contar com a participação de mais de 100 mil pessoas, já que coincidirá com a época em que centenas de romeiros comparecem a Iguape para festejar o dia do Bom Jesus de Iguape, comemorado a 6 de agosto.”

A oficialização do projeto atômico do governo ditatorial na Juréia gerou uma ação ainda mais intensa na população. Cada grupo ao seu modo , valendo-se dos recursos que possuía, procurava expressar o descontentamento e a indignação que tomou conta de diversos setores da sociedade. A análise destas mobilizações oferece elementos que permitem compreender não apenas aquele momento da história local peruibense, mas também aspectos do país e do mundo no início da década de 1980.

Pensando no microcosmo peruibense, nota-se a oposição da sociedade à destruição da mais importante reserva de mata atlântica do país, um grito de valorização da sua terra e uma tentativa dos moradores de terem voz ativa sobre os destinos de sua cidade. Pensando mundialmente, a crítica ao modelo de geração de energia a ser adotado – o atômico – reflete o planeta politicamente bipolarizado surgido no pós-Segunda Guerra. O temor causado pela energia nuclear – sempre associada aos horrores de Hiroshima e Nagasaki – tornava-se mais terrível no imaginário dos habitantes de Peruíbe devido às recentes notícias veiculadas pela imprensa sobre o (pouco explicado) acidente ocorrido na usina Three Mile Island. Nas proximidades de Harrisburg, a capital do estado norte-americano da Pensilvânia, na manhã de 28 de março de 1979, gases radioativos começaram a evaporar de um dos dois reatores da usina. Até então, este era o pior desastre atômico já presenciado pela humanidade, depois superado pelo vazamento de Chernobyl, na União Soviética, em 1986. Já pensando na situação brasileira, observa-se uma sociedade sufocada por 16 anos de autoritarismo e que, por meio dos protestos antiusina, buscava abrir novas fendas na carcomida estrutura política do governo ditatorial , que começava a dar sinais de esgotamento. Pode-se pensar que as mobilizações populares do “Usina Nuclear Não” traziam, em sua essência, o mesmo embrião que levaria, quatro anos depois, milhares de brasileiros ao “Eu quero votar para Presidente” e “Diretas Já”.

Apesar dos indícios de exaustão da ditadura civil-militar, os generais-presidentes ainda estavam no poder e o aparato de vigilância, controle e repressão instituído pelo governo autoritário funcionava a todo vapor. Sem dúvida, o governo sabia que os protestos antiusina colaboravam para minar suas bases. Será que tais protestos mereceram atenção do reticulado sistema de coleta e análise de informações e de execução da repressão vigente no país? Caso sim, o que preocupava os informantes? Que dados e elementos buscavam investigar? No próximo artigo, procuraremos investigar de que maneira o DOPS tratou o movimento Usina Não.

Texto e Pesquisa: Fábio Ribeiro*

*Professor de História da Rede Pública e Mestre em História Social pela FFLCH/USP

Imagens: Creditadas no local

Publicação: Márcio Ribeiro / O Garoçá

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Fontes Consultadas

Jornal “O Estado de S.Paulo” disponível em http://acervo.estadao.com.br

Jornal “Folha de S.Paulo” disponível em http://acervo.folha.uol.com.br

Jornal “O Globo” disponível em http://acervo.oglobo.globo.com

Outros jornais citados http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

Acervo DEOPS http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/acervo/repositorio_digital/escritos

Revista “Veja” https://complemento.veja.abril.com.br/acervodigital/index-novo-acervo.html

ANEXOS

PARTE 1

Artigo usina parte 1: Juréia Atômica – “do boato ao fato”

ENSAIO FOTOGRÁFICO

Ensaio fotográfico: Viaje no tempo e veja fotos históricas e recentes de pichações antiusina