O mês de fevereiro começara como sempre em Peruíbe, naquele 1980. Chegava ao fim mais uma temporada de verão e o jovem município se preparava para comemorar 21 anos de emancipação no dia 18. Nas mesas dos bares e restaurantes e nos bancos da Praça da Matriz, o tema das conversas era a final do Campeonato Paulista de 1979, cujas finais entre Corinthians e Ponte Preta estenderam-se até o início do ano seguinte. Porém, uma notícia, até então não confirmada oficialmente, caiu como uma bomba – atômica – entre a população, causando perplexidade e indignação: a provável instalação das usinas nucleares 4 e 5 do programa nuclear brasileiro no maciço da Juréia, divisa entre Peruíbe e Iguape.

De acordo com jornal O Globo (11/02/1980, p.13), os boatos já vinham de um ano, porém naquele fevereiro começavam a ganhar ares de verdade.

Em 6 de fevereiro de 1980, o Jornal do Brasil (RJ), noticiava uma denúncia, feita pelo senador da oposição Franco Montoro, de que havia “um movimento silencioso para a instalação de uma quarta usina nuclear no Brasil, a ser construída na cidade paulista de Peruíbe”. (p.19)

Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, em sua edição de 14 de fevereiro de 1980 (p.62), o primeiro alerta sobre as pretensões do governo federal de instalar a usina 4 em Peruíbe foi dado por Ernesto Zwarg, presidente da Sociedade de Ecologia, Paisagismo e Humanismo , de Itanhaém. “Vi, detalhadamente, a planta que esteve com a empresa Kurt Engenharia, uma das concorrentes à obra. Os detalhes eram completos e mostravam, na ilha do Boquete, a 70 metros da praia, a construção de um cais, com cerca de 400 metros”, afirmou Zwarg ao jornal. O ecologista também ressaltou que técnicos da CESP estiveram na região da Juréia entre dezembro de 1979 e janeiro de 1980 fazendo demarcações na praia e comentaram com famílias residentes no local que a intenção do governo era mesmo instalar a usina naquela área e em Peruíbe.

Apesar de ainda estar no plano das especulações, a notícia gerou mobilização em diversos setores da sociedade peruibense. A onda de protestos chamou a atenção da grande imprensa paulista. O Estadão de 14/02/1980 noticiava em manchete na sua página 62: “Cresce no litoral a reação contra as usinas nucleares”. A reportagem apontava que “ os protestos contra a construção da usina atômica no litoral sul começaram em Peruíbe, na semana passada, quando estudantes do 2º grau passaram a escrever nos muros da cidade frases como Feijão sim, usina não e Peruíbe, cidade da morte.” Os surfistas, relata O Globo (11.2.1980, p.13), picharam na parede de uma casa de diversões eletrônicas, ponto de encontro da juventude peruibense: Átomo? Tá louco! Carros circulavam pela cidade com adesivos nos vidros pedindo “Não deixem implantar o poluidor nuclear em Peruíbe”.

O Globo , 11.2.1980, p.13.

As manifestações parecem não ter ficado restrita aos jovens e secundaristas. No dia 10, quando a cidade iniciava as comemorações de sua elevação a município, duas mil pessoas realizaram uma passeata, relata o jornal. Levando-se em conta que a população peruibense em 1980 era de 18.411(conforme o censo realizado pelo IBGE naquele ano), pode-se considerar que a mobilização foi intensa. 

Segundo O Globo, a partir de 4 de fevereiro, um livro de assinaturas contra a instalação da usina nuclear, passou a circular na cidade, organizado pelo pediatra João Antônio Saez Cervantes . Endereçado ao Presidente Figueiredo, em apenas dois dias 350 pessoas já haviam assinado o documento.

Em Iguape, outra parte diretamente afetada pelo empreendimento, também houve discordância. O presidente da Sociedade de Defesa do Meio Ambiente de Iguape telegrafou ao ministro das Minas e Energia, Cesar Cals, ao presidente da Nuclebras, Paulo Batista Nogueira, e ao governador Paulo Maluf, opondo-se à construção das usinas no litoral sul e Vale do Ribeira e prometeu iniciar uma campanha de conscientização da população quanto aos perigos das instalações nucleares.

A preocupação, ao que parece, não se limitou aos municípios atingidos. Segundo o Estadão, em 13 de fevereiro uma reunião na USP, com participação de pessoas ligadas à Comissão de Defesa do Patrimônio da Comunidade e à Associação Paulista de Proteção à Natureza decidiu que, em 30 dias , seria realizada a primeira manifestação organizada, “uma passeata intitulada Marcha da Vida, pelas ruas da capital”. Um dos participantes da reunião, morador de Peruíbe, afirmou que “será uma passeata gigantesca” e cobrou um posicionamento claro do mandatário paulista: “queremos que o governador saia de seu silêncio, bem como garantir a área de lazer de 11 milhões de paulistanos”.

O mês de fevereiro parece ter sido o momento disparador de toda a mobilização regional que envolveu o processo de instalação dos reatores nucleares no litoral sul paulista.

Em 12 de março, três vereadores de Praia Grande foram recebidos em audiência pelo ministro de Minas e Energia, em Brasília. Segundo o jornal Cidade de Santos (12.3.1980), os edis praiagrandenses pretendiam “pedir esclarecimentos a respeito da provável instalação de uma usina nuclear em Peruibe” e entregar a César Cals um documento em que “expunham a ansiedade de toda a população da Baixada diante dos rumores dando como certa a instalação de uma usina nuclear em Peruibe, e se posicionam contrariamente à instalação dessas usinas em qualquer parte do território brasileiro, por acharem que a política nuclear brasileira é inviável, tanto do ponto de vista econômico quanto de segurança”.

“Não apoiamos a implantação de usinas nucleares da presente tecnologia. Não queremos ser coniventes com aqueles que violentam a vida”. Estes eram os termos de um abaixo-assinado que começou a ser divulgado em Santos , em 17 de março de 1980, pela Associação Paulista de Proteção à Natureza – APPN – pedindo a imediata paralisação do Programa Nuclear Brasileiro. A notícia, veiculada em A Tribuna (18/03/1980), destacava a estratégia de ação da entidade: “No mesmo local onde vêm sendo colhidas as assinaturas, entidades e grupos interessados em integrar o movimento podem retirar listas e cartazes contra a instalação das usinas nucleares”.

Mas o que em fevereiro e março eram boatos, rumores e especulações sobre a Usina na Juréia tornou-se algo oficial e real a partir de 4 de junho de 1980. Às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente – não se sabe se propositalmente –, o general-presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo assinou o Decreto nº 84.771, que declarava de utilidade pública para fins de desapropriação, uma área de 236 Km2 compreendida na faixa litorânea do Estado de São Paulo, entre as cidades de Peruíbe e Iguape.

O Decreto nº 84.771 que declarava de utilidade pública as terras entre Peruíbe e Iguape.

Em reportagem de duas páginas a edição da revista Veja que chegou às bancas em 11 de junho de 1980 (p.92-93), destacava em manchete “ A CESP atômica”. A reportagem relatava a “espetacular transação” que fez a CESP comprar, por cerca de 65 bilhões de cruzeiros, todo o setor paulista da Light. Mas de acordo com a revista não foi a envergadura da transação que chamou a atenção. “O Planalto anunciou a construção no litoral sul do Estado de São Paulo de mais duas usinas nucleares das oito previstas no acordo nuclear com a Alemanha. E quem vai pagar a construção e operar essas usinas é justamente a CESP”. A reportagem apresentava uma ilustração que detalhava o local onde seriam instalados os reatores nucleares, na região da Barra do Una. Assim, fechava-se o cerco. O decreto de desapropriação liberava o espaço para a construção dos reatores e a “espetacular transação” capitalizava a Companhia Energética Paulista – agora a maior geradora de energia elétrica da América Latina – para executar o empreendimento, juntamente com a estatal Nuclebrás.

Revista Veja, 11 de junho de 1980, p.92.

Assim, o boato tornara-se fato. A usina, agora, já possuía local e sabia-se quem se responsabilizaria por colocar os reatores em funcionamento. Para a população, o que era perplexidade tornou-se preocupação e medo, especialmente para as tradicionais famílias caiçaras que habitavam as praias de Parnapuã, do Una e do Rio Verde, onde ocorreriam as construções. Diante da confirmação oficial cabe indagar: Como reagiu a sociedade? As manifestações continuaram e se intensificaram? Atingiram outras cidades da região? Quais as formas utilizadas para expressar a repulsa ao projeto atômico no litoral paulista? Estes questionamentos serão nosso guia no próximo artigo.

Texto e Pesquisa: Fábio Ribeiro*

*Professor de História da Rede Pública e Mestre em História Social pela FFLCH/USP

Imagens: Creditadas no local

Publicação: O Garoçá

Contato O Garoçá: ogaroca@bol.com.br

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