Quem nunca se questionou, seja para si ou para os demais, sobre as grandes perguntas que intrigam a humanidade a respeito do inexplicável milagre da vida e toda sua evolução e complexidade? Essa reflexão é um dos temas principais a ser explorados no monólogo dramático A Obscena Senhora D.
A atriz Suzan Damasceno vive a personagem Hillé, uma viúva de 60 anos que sente muita falta de seu marido e passa grande parte de seus dias relembrando os diversos momentos vividos com ele, principalmente os mais íntimos. Há anos Hillé vive debaixo do vão da escada de sua própria casa, onde ela se enclausurou e decidiu não sair mais. A perda do esposo apenas contribuiu para que ela transitasse ainda mais entre o sano e insano sendo tachada de louca por toda a vizinhança.
Durante os 60 minutos de espetáculo, a personagem permanece quase o tempo todo sentada em uma cadeira, revelando para o público alguns fatos de sua vida e, principalmente, as angústias que tanto a assolam e a fizeram se isolar dos demais. Ela tem conversas frequentes com um imaginário menino porco, um meio encontrado por ela de questionar a Deus todas as suas dúvidas.
E foi justamente a imensidão de incógnitas recheando o cérebro de Hillé que a fez se afastar até mesmo de atividades rotineiras, já que ela queria e não conseguia obter a compreensão de tudo, pois dizia apenas saber da existência do divino sem entender sua ação sobre cada coisa na Terra.
A intelectualidade presente no diálogo com o público se dá de forma cativante. A peça propõe aos espectadores não apenas analisarem os conflitos psicológicos de Hillé como meros observadores, mas também entrar dentro da complexa e atormentada mente da protagonista e ‘sentir na pele’ todas as suas aflições.
Toda a genialidade do roteiro se exalta ainda mais diante da intensa e brilhante atuação da atriz Suzan, que confere total entonação e vivacidade em cada palavra pronunciada por ela, apenas despertando no público a vontade de se envolver cada vez mais com o calor e a emoção provocados pelo texto.
O simples cenário vira apenas um mero complemento no palco, já que a atriz consegue incorporar toda a complexidade do roteiro. Vale ainda destacar os diversos momentos em que ela narra conversas entre Hillé e seu marido, ou os vizinhos, transitando entre passado e futuro. Em todos estes diálogos, diante de sua ótima transformação vocal e cênica, ela delineia tempo e personagens de uma forma tão clara e precisa, criando um perfeito cenário imaginário, que permite a total compreensão da imersão na trama pela plateia.
Autointitulada de A Senhora D, Sem Deus, ela leva a quarta letra do alfabeto em seu nome por se referir a si mesma como a imagem viva da Derrelição, ou seja, do desamparo, do abandono e do isolamento total ao qual ela mesma se entregou por completo na tentativa desesperada de tentar entender o incompreensível, afastando-se dos demais. Já o termo obsceno é para se referir à forma como ela encara a própria existência, dizendo ser a vida uma aventura obscena, de tão lúcida.
Sua preferência pela cor parda, sem vida, também se destaca na composição e iluminação do cenário e até mesmo nos papéis em formato de peixes que ela recorta e deixa dentro do aquário para substituir os animais que morreram.

 

A Obscena Senhora D é baseada no texto da escritora brasileira Hilda Hilst e tem direção de Donizeti Mazonas e Rosi Campos. 
 
Por Mariana da Cruz Mascarenhas