Publicar notícias de tragédias, assassinatos, acidentes, decapitações e sangue sempre foi garantia de público. Na era dos blogs isso cresceu de maneira exponencial.

Imagem construída com suporte do BitsStrip

Bonequinho com o cabelho desgrenando, com camisa azul clara e gravata azul escura, gesticulando os braços e gritando: "eu quero é sangue". Atrás dele uma cidade toda destruída.
Há algum tempo blogs com editorias policiais pululam o interior do Nordeste brasileiro. Talvez eles existam em outras regiões também. Eu não sei. Conheço bem aqueles do Sul e Sudoeste baiano. São sempre blogs com desenho duvidoso, sem estrutura organizacional, repletos de anúncios dos comerciantes locais na barra lateral e no cabeçalho, com textos curtos que ninguém lê e fotografias sanguinolentas (são elas que garantem a audiência). Quase sempre, essas mesmas fotografias, são adquiridas por conta de parcerias com algum policial que facilita o acesso aos locais em questão, às fotografias em si (na maioria das vezes com um conteúdo que não deveria ser publicado) e à versão da polícia sobre o ocorrido.

Ouvir todas as partes envolvidas, direito de resposta, ou inocência presumida, são coisas que não existem no ofício desses blogueiros. Mas todos se acham jornalistas no exercício da sua função.

Antes que você comece a me atirar pedras, permita-me explicar algumas questões: eu não sou um representante da velha mídia tentando impedir o crescimento da comunicação digital. Muito pelo contrário. Aposto forte em mídias como blogs, podcasts e epubs. Mas acredito que o suporte é menos importante do que o conteúdo. O jornalismo possui certas técnicas e códigos de conduta – que nem sempre são obedecidos pelos profissionais da área – e são esses códigos de conduta que fazem com que tenhamos um norte.

  • Não costumamos publicar notícia sobre suicídio, a não ser que a informação seja de interesse público;
  • não publicamos fotos de pessoas que são SUSPEITOS de ter estuprado alguém (Como fizeram aqui, aqui e aqui). Pode ser que se prove mais tarde que o sujeito era inocente, mas aí sua vida já terá sido destruída. Lembrem-se do caso “Escola Base” (ver aqui);
  • não publicamos fotos do corpo de uma criança que teve a cabeça esmagada num acidente (aqui, aqui e aqui).

Não estou querendo dizer com isso que o jornalismo convencional não cometa os mesmos erros, mas existe um norte pelo qual tentamos nos balizar. Há um esforço sincero, na maior parte dos profissionais de comunicação, no sentido de evitar esse sensacionalismo irracional.

Infelizmente esse tipo de “trabalho jornalístico” se torna mais comum à medida que o nosso interesse pelo mórbido e pelo exagerado sufoca o nosso bom senso. Em resumo, se não houvesse interesse por esse tipo de conteúdo não haveria a proliferação de tanto lixo.

Com a facilidade de se criar um blog a quantidade de conteúdo de gosto duvidoso cresceu de modo exponencial. Eu mesmo já tive alguns contratempos com o editor de um desses blogs sem conseguir, no entanto, fazer com que ele mudasse a abordagem de suas publicações. Um detalhe interessante é que o blogueiro em questão era um evangélico que vivia recitando passagens bíblicas. As pessoas têm a mania de se esconder por trás de máscaras sociais ou religiosas.

O que fazer então? De minha parte, tento, sempre que possível, evitar consumir esse tipo de conteúdo. Não importa se é um blog, um programa de TV ou de rádio. Foco sempre em algo que me faça crescer como pessoa. Eu sei que é pouco, mas no momento é tudo que posso fazer. Propor um controle sobre tudo que é publicado na rede seria uma estratégia muito mais perigosa. O interesse humano pelo mórbido não vai mudar e sempre haverá quem se aproveite disso.

 José Fagner Alves Santos

Este artigo faz parte da campanha #PEDAblogBR.