Com um índice de rejeição maior do que 70% pela população brasileira, segundo dados do Instituto Datafolha, o governo Temer não consegue melhorar seu grau de avaliação e parece “enxugar gelo” na tentativa de adotar medidas que realmente sejam eficazes no combate à crise econômica do Brasil. Diante desse agravante, o presidente e seus colegas parlamentares se agarram a qualquer dado que possam usar como justificativa para indicar uma possível melhora na economia nacional – mas que na prática está muito aquém de se conscientizar.

Exemplo disso foi a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), um dos medidores da taxa da inflação, que fechou o ano de 2017 em 2,95%, abaixo da meta de 4,5% estipulada pelo governo e do piso de 3%. Trata-se do menor valor desde 1998, quando atingiu 1,65%. Desde que o regime de metas inflacionárias foi implantado em 1999, o teto da meta já havia sido rompido em 2012 e 2015, mas nunca rompera o piso.

Já há quem esteja comparando o Brasil com países desenvolvidos, considerando que nações como Estados Unidos, Espanha e Alemanha possuem níveis inflacionários semelhantes. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apura os dados para cálculo do IPCA, juntamente com o Banco Central, concorda que essa redução acentuada se deve, principalmente, à diminuição dos preços alimentícios em 1,87%, favorecida pelo aumento de 30% da safra. Mas parando por aqui pergunta-se: será que os brasileiros estão sentindo no bolso os efeitos benéficos desta redução do IPCA? Provavelmente não e mal sentirão.

Segundo o IBGE, em 2018, acontecerá um “realinhamento” dos preços dos alimentos, os quais deverão empurrar a inflação para a “normalidade”. Ou seja, o que estamos vivendo no momento é um fenômeno atípico e que ainda assim não se reflete tão claramente no bolso do consumidor. Embora tenha ocorrido tal queda nos valores dos produtos alimentícios, itens como botijão de gás, planos de saúde, creche, gás encanado, gasolina, conta de luz, escola particular, seguiram aumentando para desassossego dos cidadãos.

E não é apenas a redução do valor alimentício a única responsável pela queda inflacionária, mas sim outros fatores preocupantes levantados por Paulo Klias, doutor em Economia e especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental. Segundo ele, a queda do IPCA também ocorreu em razão da inclinação constante do número de consumidores, que esfriou o mercado. As famílias estão comprando menos, principalmente em razão do aumento do desemprego.

De acordo com Klias: “Durante os últimos dois anos e meio, o Brasil vive uma recessão que nunca aconteceu. Além disso, há efeito sobre a massa de rendimentos extremamente reduzido, pois há uma quantidade enorme de desempregados. A renda das famílias caiu enormemente”. E mesmo para muitos que estavam desempregados e conseguiram nova ocupação, a situação não está fácil.

Relatório apresentado pelo IBGE, divulgado em janeiro de 2018, constatou que mais de meio milhão de brasileiros estão vendendo algum tipo de alimento nas ruas, ajudando a reduzir, assim, a taxa de desemprego. O número de ambulantes no ramo alimentício saltou de 253,7 mil no terceiro trimestre de 2016 para 501,3 mil no mesmo período de 2017. Ainda de acordo com o IBGE, esse número rondava os 100 mil comerciantes no ano de 2015. Por isso, a tal queda no desemprego tão defendida pelo governo Temer precisa ser analisada cautelosamente, afinal a elevação de camelôs de comida equivaleu a cerca de 11% da geração de vagas de emprego informal no trimestre encerrado em outubro de 2017.

Neste ano de 2018, em que ocorrerão eleições presidenciais, o peso no bolso do consumidor será um grande fator avaliativo para a escolha dos possíveis candidatos. Uma pesquisa do Instituto Datafolha apontou que 28% dos eleitores brasileiros entrevistados consideram o fator econômico o principal problema do país. Já a saúde está no topo, sendo considerada o principal agravante por 43% dos consultados. Mas o governo parece não se atentar a respeito e segue na culpabilidade do rombo da previdência como um dos responsáveis pela piora econômica. Todavia, nem sequer cita o fundo eleitoral bilionário, criado com recursos públicos, justamente para arcar com as despesas em campanhas políticas, o qual ainda sugou RR$ 472,3 milhões originalmente destinados para parlamentares investirem em educação e saúde.

Os microempresários são outra categoria que também poderão se prejudicar. Em janeiro deste ano de 2018, o governo Temer anunciou um veto a proposta que permite o refinanciamento de dívidas das micro e pequenas empresas inscritas no Simples Nacional. A justificativa é o perigo de um incentivo a essas empresas não pagarem impostos, na esperança de serem compensadas com o refinanciamento.

Mas e quanto aos parlamentares-empresários que foram beneficiados com perdões bilionários em juros e multas, em troca de apoio ao presidente na votação da sua acusação por corrupção? Assim como a liberação de bilhões em emendas parlamentares? Seguindo tais caminhos, não há motivo para sequer respirar algum alívio pela queda inflacionária. Pelo contrário, ela é resultado muito mais de problemas do que de melhorias econômicas.