As publicações impressas, principalmente as amadoras, vão perdendo espaço para o conteúdo digital. Mas, sempre existe um grupo saudosista que trás de volta parte dessas atividades

Entre 2001 e 2002, enquanto dava aulas de desenho para um grupo de garotos, resolvi criar um fanzine para ter um espaço de publicação do trabalho desses meninos. Para conseguir preencher as 20 páginas de cada edição, resolvi convidar outras pessoas que não faziam parte do grupo de alunos. Na verdade, conseguimos a colaboração de desenhistas bem melhores do que eu, como Jurnier e Leandro, só para citar os exemplos mais gritantes.

Fanzine é o nome dado a qualquer publicação amadora. O nome vem da contração de fanatic magazine. É, de modo geral, uma publicação feita por fãs. Tanto faz se são fãs de quadrinhos, de uma banda, de um gênero. A tiragem costuma ser muito pequena, usando recursos de impressão extremamente baratos. Já vi um fanzine impresso em mimeógrafo.

Como não haveria linha editoria definida – publicaríamos qualquer coisa que aparecesse – resolvemos batizar nossa revista de Várias Variáveis, um nome chupado de um álbum dos Engenheiros do Hawaii. O resultado foi bem interessante. Como não tínhamos computadores para trabalhar a diagramação, a metodologia aplicada foi extremamente artesanal. Recortávamos, colávamos e fotocopiávamos. O produto final era graficamente tosco, mas emocionalmente reconfortante.

Era muito importante poder ver nossos nomes impressos, nossos trabalhos sendo passados de mão em mão naquela coletânea disforme que chamávamos de nosso zine.

As edições eram compostas de histórias em quadrinhos variadas, charges, ilustrações e um ou outro texto. Usávamos o formato A5. Na verdade, dobrávamos uma folha de A4 ao meio – com impressão frente e verso – e grampeávamos. Era no mesmo tamanho das histórias em quadrinhos em formatinho, publicadas pela Editora Abril até a década de 1990.

A capa era, invariavelmente, composta por uma ilustração sem qualquer relação com o conteúdo em si.

Era preciso ficar no pé da molecada para que todos entregassem seus trabalhos no prazo, só assim a gente conseguia fechar cada uma das edições. Repassávamos as cópias, para quem se interessasse, cobrando apenas o valor das fotocópias.

Com o avanço da internet, que até aquele momento era uma novidade na nossa região, a ideia de uma publicação amadora perdeu o sentido. No entanto, não são poucos os que sentem falta daquele período. Eu, certamente sou um deles.

  • Post scriptum

Recomendo o documentário Fanzineiros do Século Passado. Posto a baixo o primeiro capítulo. Todas as partes estão disponíveis no YouTube.

José Fagner Alves Santos